Título: Eleitores em desencanto
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Fonte: Jornal do Brasil, 21/08/2005, País, p. A2
O escândalo do mensalão parece um quebra-cabeças em que as peças podem estar se encaixando ou não, dependendo de quem analisa o jogo. Há um grupo crescente de observadores detectando em quase todos os episódios, um ponto comum: o esforço, que se mostrou desastrado, do PT, para se capitalizar em várias frentes e se tornar um partido eleitoralmente forte, com um projeto de poder a longo prazo ¿ e à moda antiga. A velocidade com que surgem novos episódios no inacreditável cenário do escândalo do mensalão, além de surpreender analistas e especialistas, também está gerando resultados, em pesquisas de opinião, difíceis de acreditar até para os mais experientes diretores e gerentes dos institutos. Entre segunda e sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), em parceria com o Jornal do Brasil realizou um levantamento, ouvindo 803 eleitores em todo o Estado do Rio e constatou que a crise gerou um desencanto e uma frustração generalizadas entre os eleitores fluminenses. A maioria dos consultados foi flagrada em vários níveis de recusa radical, quando confrontados com o atual quadro político: alguns fazem questão de votar em candidatos de primeira viagem. Outros vão anular o voto e há uma minoria que votará em branco. Somadas essas três categorias de eleitores inconformados, a pesquisa IBPS-JB chega ao alarmante percentual de 62,9% dos entrevistados. Só 16,9% afirmaram que pretendem votar no mesmo candidato, enquanto 25,4% não sabem o que farão. Esse estado de espírito tem a ver com um melhor grau de informação, fruto do festival de cobertura das sessões da CPI pelas emissoras de TV públicas e particulares, que tornou íntimo para milhões de famílias o deprimente espetáculo da crise. Com maior ou menor interesse, 73,4% dos ouvidos estão acompanhando o noticiário, sem falar nos 17,7% que ficaram atentos ao início do escândalo mas já se consideram saturados com tanto dinheiro fácil em cena. Decepcionados com o governo, 56,5% dizem que a corrupção é maior hoje do que na administração anterior. Mais da metade ¿ 55% ¿ acha que o presidente Lula sabia dos casos de corrupção, embora só 21,3% acreditem que ele participava do esquema montado. O desencanto fica escrachado na pesquisa IBPS-JB quando se pergunta ao eleitor sobre eventuais castigos: a grande maioria (68,5%) acha que os culpados não serão punidos.
É um autêntico ¿tsunami¿ político, alarma-se o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, presidente do IBPS, ao avaliar alguns dados da pesquisa. As taxas de votos nulos e brancos, se somadas ¿ e caso se confirmem em 2006 ¿ alcançarão um percentual inédito no Estado e no Brasil. Isso sem citar o fato de que o desencanto e a frustração com os atuais políticos, revelados pela pesquisa, também traz o risco de escancarar a porta para ¿a aventura populista ou golpista¿, lembra Tadeu.
O economista Ubiratan Iorio chama a atenção para as possíveis conseqüências na economia das últimas denúncias envolvendo o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Ameaçada a ¿blindagem¿, há uma reversão de expectativas: ¿Se o mercado passa a acreditar que as coisas vão piorar, elas pioram imediatamente, porque todos os agentes adotam comportamentos defensivos, diante do que esperam¿ ¿ exemplifica.
O cientista político Paulo D¿Ávila Filho alerta que a garantia da manutenção da política econômica torna-se fator decisivo do conflito político. As rédeas curtas da economia tornaram-se a principal fonte de sustentação do governo do PT. Lula, nos seus últimos movimentos procurando reconquistar apoio dos movimentos populares, depara-se com o dilema: os segmentos sociais mais organizados condicionam incrementar o apoio ao presidente à mudança da política econõmica.
Paradoxalmente, o recuo dos líderes oposicionistas, na sexta-feira, renunciando à tarde aos discursos mais inflamados contra Palloci, disparados pela manhã, mostra como a sobrevivência do governo ¿ pelo temor generalizado de súbitas turbulências econômicas ¿ depende da âncora simbolizada por aquelas ¿elites¿ e seus representantes, que, no palanque, Lula diz contrariar. Essa peça do quebra-cabeças é mais difícil de encaixar.