Título: Pedagogia cívica
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 21/08/2005, Opinião, p. A10

Apesar do espanto diante da terra arrasada em que generalizadamente se transformou a política brasileira - com partidos, governo e Congresso confrontados com uma crise ética e moral de inédita proporção - o Brasil pode orgulhar-se de estar atravessando um momento de rara pedagogia cívica. Ao lancetar os tumores da corrupção, o país tem aprendido a desatar o nó das próprias fragilidades. Fazendo-o, promove uma limpeza essencial para o aprimoramento das instituições. Avançadas as investigações, escancarada a roubalheira espalhada pelos pântanos do poder e consumadas as imprescindíveis punições dos criminosos, o Brasil deverá respirar melhor depois da crise. O mesmo ambiente que atormenta Brasília e inquieta os cidadãos de bem, insista-se, impõe uma pedagogia que ajuda a iluminar o futuro, nutrindo-se daquilo que sobrevive à turbulência do que passou. Ainda que os acertos costurados nos bastidores do Congresso e do Palácio do Planalto impeçam a punição política dos culpados, ou que seja jogada aos leões apenas a carne magra (os criminosos de menor expressão), restará a esperança depositada na sentença das urnas. É a conseqüência inevitável de um eleitor cada vez mais amadurecido, crítico e inconformado com o descaso de seus representantes e com o esfacelamento moral de políticos e partidos. Crises agudas como esta, convém sublinhar, ajudam a despertar no eleitor uma consciência maior do quanto pesa o voto. Contribuem para evidenciar o desastre das más escolhas, em que bandidos engravatados se tornam os responsáveis pelos destinos do povo.

Embora destinatário dos serviços prestados pelos governantes, que os representa, o povo tem pouca atuação consciente nos destinos dos governos - regra válida tanto para as ditaduras quanto para as democracias. Tal constatação, somada à repugnância com as traquinagens reveladas no poder, provoca em muitos o mais grave dos sentimentos em relação à política: a descrença, a apatia, a impassibilidade. Impõe-se, assim, compreender que a política não pode ser o meio da conservação, mas da transformação, e que por meio da política é possível tornar o poder um instrumento de justiça, igualdade e paz social - e não uma ferramenta para obtenção de dividendos escusos e individuais. Para tanto, é preciso que, desta crise, os eleitos apreendam a importância de valorizar a confiança conquistada do eleitor. Dela depende a sustentabilidade dos homens que fazem as instituições, e de conduzi-las em consonância com as aspirações nacionais.

A saída da crise exigirá seriedade dos responsáveis pelas investigações - incluindo parlamentares, juízes, delegados e procuradores - e a convicção de que o país está imerso num dos seus mais graves momentos. Não podem, por exemplo, promover julgamentos a priori, apressar-se na divulgação de denúncias ainda não apuradas, estimular um ambiente de caça às bruxas, em que a busca irrefreável por culpados acaba por esterilizar as investigações. Superar a turbulência requer ainda alterações substantivas no sistema político-partidário. As mudanças na lei eleitoral, sugeridas esta semana, constituem um remédio para conter a epidemia. A doença, no entanto, persiste. Extirpá-la dependerá da saúde da nossa democracia.