Título: Inquérito só acaba em 2008
Autor: Clara Cavour
Fonte: Jornal do Brasil, 21/08/2005, Internacional, p. A12
O vazamento dos documentos para a tevê ITV derrubaram a versão forjada pela polícia, mas não fizeram a Grã-Bretanha abortar a operação-abafa criada pela cúpula da segurança sobre a morte de Jean. A estratégia, agora exposta, vinculava um inocente ao terrorismo para fazer o assassinato passar de incompetência a fatalidade. Ontem, o ministro do Interior, Charles Clarke, reagiu à pressão pela demissão do responsável com apoio explícito a ele.
- Estou contente com o comportamento não só de Ian Blair, mas de toda a Scotland Yard em relação à investigação - disse Clarke.
Está claro também que a missão oficial brasileira que segue amanhã para a capital londrina será mal recebida. Apesar da indignação de Brasília, a comissão independente (IPCC) que investiga o caso não dará acesso aos diplomatas.
- Não saberão de nós mais do que os advogados da família ouviram. E também não dividiremos as evidências colhidas com eles - disse uma fonte da IPCC ao jornal Sunday Times.
Uma nova denúncia complica mais a situação da Scotland Yard. De acordo com o tablóide The Daily Mail a família de Jean Charles teria rejeitado US$ 1 milhão em indenização oferecido pela corporação durante a visita do subcomissário John Yates a Gonzaga (MG), há duas semanas. Os pais do rapaz teriam considerado a oferta ''um insulto''. A força nega ter oferecido o valor, alegando que ''as únicas discussões até agora foram sobre despesas iniciais''.
A expectativa dos Menezes, se depender da IPCC, vai gerar muita angústia. Os trâmites são longos e demorados e se alguém chegar a sentar no banco dos réus nesse caso, só ocorrerá em 2008. Há descrença quanto a isso, mesmo com evidências como o relato do agente que vigiava o prédio do brasileiro e desmentiu a alegação de que Jean tinha comportamento suspeito. Segundo o policial, o jovem usava jaqueta jeans e não tinha mochila, ao contrário da descrição dada após o assassinato. E era claro, enquanto os suspeitos, escuros.
O vigia filmava o prédio, mas não registrou o brasileiro. Quando Jean saiu, o agente fora no banheiro e alegou ''não ter ligado a câmera''. Outra declaração explosiva foi a do vice-chefe da IPCC, John Wadham, que acusou Blair de afastar sua equipe por cinco dias da cena do crime, o que consolidou a desconfiança de todo o mundo. O repórter da ITV que cobre o caso, Dan Rivers, acha que a rixa chamuscou a Scotland Yard:
- Os londrinos não crêem em apuração transparente. Desconfiam que Blair tentou encobrir a verdade - declara, ao JB. Rivers, assim como a advogada do brasileiro, Harriet Wistricht, duvidam que a farsa leve à queda de Blair. - Isso provavelmente não acontecerá - diz ela.
Para Wistricht, há perguntas demais sem respostas, como a não abordagem do brasileiro em um ônibus, antes de que chegasse ao metrô. E a dúvida quanto à verdadeira ordem da comandante Cressida Dick à equipe que matou Jean - que teria sido de interceptar e não de matar o ''suspeito''.