Título: As duas mortes de Jean Charles
Autor: Clara Cavour
Fonte: Jornal do Brasil, 21/08/2005, Internacional, p. A12
A verdade é o apelo mais simples que faz a família de Jean Charles de Menezes. É o mínimo que se pode exigir de um erro tão brutal. Desculpas já foram pedidas, apesar de já não soarem mais sinceras que uma mera obrigação. Resta agora esclarecer a Gonzaga e ao mundo tamanho equívoco sustentado por mentiras que, no entanto, sentenciou a morte do brasileiro. Os documentos vazados essa semana à rede ITV revelaram que, desde 22 de julho, a Scotland Yard não tinha motivos para condenar Jean. Seus próprios agentes o livraram de comportamento suspeito. Naquela sexta-feira, após inaugurar a política de atirar para matar, o chefe da polícia, Ian Blair, elogiou a ação na entrevista dada para aplacar o fiasco da segurança, que falhara novamente em impedir atentados:
¿ Pelo que entendi, o homem se recusou a obedecer às instruções ¿ afirmou, completando que os tiros eram ¿parte da operação antiterrorista¿. A ação policial foi presenciada por passageiros do metrô que classificaram o ¿suspeito¿ como tendo aparência árabe. Uma prolixa testemunha, Mark Whitby, disse que o suspeito fugia, usava um casaco pesado e carregava uma mochila na qual caberia uma bomba. Foi agarrado, jogado ao chão e baleado. A Scotland Yard confirmava que ¿a roupa e o comportamento¿ fizeram de Jean um suspeito. Mas foi morto sentado, e não houve luta alguma. Whitby, agora, se recusa a falar.
Às 16h50 de sábado, a polícia admitiu o erro inicial: ¿Estamos convencidos agora de que ele não teve conexão com os incidentes do dia 21 de julho¿. Quatro horas e meia depois, o suspeito tinha nome e nacionalidade.
Nos dias que se seguiram, a postura britânica mudou e passou às desculpas pela tragédia:
¿ A polícia aceita a responsabilidade. À família, só posso expressar meu profundo pesar ¿ declarou Ian Blair no dia 24, acrescentando que outras mortes poderiam ocorrer. Apesar disso, acreditava que o trabalho da instituição era fonte de orgulho para o país.
O governo brasileiro, por sua vez, se mostrou ¿chocado e perplexo¿. Numa primeira conversa com o colega britânico Jack Straw, o chanceler Celso Amorim recebeu a garantia de uma ¿investigação profunda¿. Dias depois, em Londres, o brasileiro afirmou ao inglês que, em caso de dúvidas, exigiria maiores esclarecimentos. Cumpriu a promessa. Despacha amanhã uma missão diplomática.
A polícia britânica esboçou um contra-ataque, atirando na honra do brasileiro. Alegou que Jean teria fugido em função da situação ilegal de seu visto, supostamente falsificado. Preocupou-se em destacar que esse não seria um fato comprometedor para as investigações ou mesmo para morte. Entretanto, não hesitou em lançá-lo como argumento.
O primeiro-ministro britânico Tony Blair demorou, mas pediu desculpas formalmente, como manda a diplomacia, ao presidente Luis Inácio Lula da Silva. No dia 1º de agosto, o premier ligou para Brasília lamentando o caso e informou sobre o inquérito da Comissão Independente de Reclamações para a Polícia (IPCC). Ressaltou também que a Scotland Yard ¿trabalhava em condições muito difíceis¿ e merecia apoio. Haviam passado 9 dias. À esta altura, a IPCC estava há apenas 72 horas na investigação, impedida que fora por Ian Blair.
Agora, no entanto, as contradições formaram o cenário de um teatro. À medida em que mais perguntas ficavam sem resposta, desenhou-se um quadro que só comprometeu a reputação britânica.
Ao JB, o primo de Jean, Alex Pereira, revela detalhes que reforçam o empenho policial em proteger colegas, recorrendo até à intimidação pessoal:
¿ No caminho da delegacia até o local onde reconhecemos o corpo, pedi para usar o celular de um agente chamado Kevin. No meio da ligação o telefone foi cortado. O mesmo aconteceu no quarto de hotel em que ficamos hospedados naquele dia. De noite, ele voltou com uma conta de 800 libras, que incluía as ligações feitas no seu celular ¿ afirmou, de Gonzaga (MG). ¿ Não dá para acreditar que no dia em que mataram o meu primo ainda me trouxeram essa conta para pagar ¿ completou.
Alex contou que só soube do assassinato às 13h do dia seguinte, quando recebeu um telefonema de Gésio, última chamada registrada no celular de Jean. Era um sábado de sol e estranhamente o eletricista não tinha dormido em casa. A família começou a se preocupar quando ele não apareceu para, junto com Vivien Figueiredo, sua prima, conhecer as praias inglesas, como combinado.
Desde esse dia, Alex se revolta com a forma como vem sendo tratado pela polícia britânica. Ao chegar à delegacia, foi informado de que seu primo tinha sido ¿preso¿ por suspeita de terrorismo e que ¿provavelmente¿ estaria morto.
¿ Não entendi porque achavam que podia ser um terrorista. O Jean era uma pessoa boa e ajudava todo mundo. Me levou para Londres porque dizia que lá minha vida podia mudar ¿ disse.
Hoje, véspera do aniversário de um mês da morte de Jean, Alex insiste na liberação das imagens do circuito interno de tevê do metrô. A alegação oficial para sua retenção é ambígua. Já foi dito que essas imagens não existem porque a câmera do vagão em que Jean entrou estaria sem fita, esta sob análise em decorrência dos ataques frustrados do dia anterior. Outra versão seria a de que os registros podem comprometer a investigação se forem divulgados. Para Alex, não resta dúvidas:
¿ Depois que essa imagem aparecer não será preciso dizer mais nada. Será que ele deu azar de entrar justo no vagão que inexplicavelmente estaria sem câmera um dia depois dos atentados? Essas cenas incriminam a polícia.