Título: Tecnologia das minas não garante segurança
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 21/08/2005, Internacional, p. A14
Com um argumento que tenta justificar a decisão de retomar a produção de minas antipessoais, autoridades dos Estados Unidos sustentam que os artefatos americanos não são um fator significante no problema global de minas terrestres. Os números, entretanto, mostram o contrário. Entre 1969 e 1992, Washington exportou 5,6 milhões de minas antipessoais a 38 países. Em 29 nações que passam ou já passaram pelo programa de desarmamento subterrâneo, foram encontradas pelo menos nove tipos diferentes de explosivos antipessoais, além de quatro antiveículos, tanto autodestrutíveis quanto permanentes. As minas autodestrutíveis, como as que serão produzidas, explodem depois de um certo período, programado entre 4 horas e 15 dias. Se falharem, um sistema de autodesativação assegura que o artefato não funcionará por mais de 90 dias. Para os EUA, este tipo de armamento é mais seguro do que as minas permanentes, pois não gera risco a longo prazo para civis. Especialistas discordam.
¿ O Pentágono empregou minas ¿inteligentes¿ na Chechênia e posso dizer que machucou muita gente ¿ critica Stan Brabant, da Handicap International. ¿ Falhas no mecanismo de desativação não são raras.
O ¿Spider¿ é um sistema que consiste de uma unidade capaz de monitorar 84 pontos de munição, interligados uma rede de fios. Uma vez que a rede detecta presença, um operador no controle do sistema pode ativar o explosivo mais próximo do alvo. O ¿Intelligent Munitions System¿ deve seguir a mesma linha tecnológica.
No entanto, é possível que os EUA já usem um sistema semelhante de controle remoto de minas antipessoais. O Pentágono não confirma nem desmente, mas há relatos de que tenha enviado ao Iraque, em maio, 25 minas ¿Matrix¿, para munir a Brigada Stryker do Exército. Este sistema, percussor do ¿Spider¿, pode ser detonado a quilômetros de distância, via sinal de rádio, por um soldado operando um laptop ligado a um servidor. A diferença com o ¿Spider¿, explica Brabant, é que o ¿Matrix¿ explode minas Claymore, que normalmente lançam fragmentos letais a 60 m de distância. Cálculos do Pentágono estimam que o alcance pode chegar a um raio de 300 m.
O explosivo usado no ¿Spider¿ seria mais preciso. O que não desvia as críticas. Segundo o Human Rights Watch, o Pentágono não esclarece o impacto humanitário do sistema ¿Matrix-Claymore¿.
¿ Um ponto aparecendo na tela do computador não é um método seguro para determinar se o alvo é um combatente inimigo ou um civil desavisado ¿ alerta Steve Goose, do HRW.
Outras questões sem resposta são se o ¿Matrix¿ é um sistema autodestrutível ou autodesativável, e se pode, inadvertidamente, ser acionado pela presença de civis, dispensando o comando computadorizado de um soldado.
¿ Os EUA precisam dar garantias de que civis não conseguem detonar as minas Matrix-Claymore. Do contrário, o sistema acaba funcionando como as antigas minas antipessoais ¿ acrescenta Goose. (S.M.)