Título: ''Foi uma surpresa para todos''
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 23/08/2005, País, p. A4
O presidente da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), Sérgio Rosa, garante que não sabia que o dinheiro das empresas Telemig Celular e Brasil Telecom pagavam o esquema de espionagem da Kroll Associates para Daniel Dantas, o dono do Grupo Opportunity. Também ficou surpreso ao saber que as mesmas empresas, onde os fundos têm participação, injetaram R$ 127 milhões na conta da DNA Propaganda, de Marcos Valério, acusado de ser o operador do mensalão. Rosa considera ¿absurdo¿ o fato de o dinheiro das empresas de telefonia ter sido utilizado para investigar os próprios fundos e o governo, e a idéia de que as empresas podem ter financiado o esquema de mensalão. Ele defende a proposta de que as CPIs dos Correios e do Mensalão investiguem o sócio Dantas. Em entrevista ao JB, Rosa revela detalhes de uma auditoria da Previ mostrando que a administração do fundo de pensão estava fragilizada. Deixava os investidores brasileiros e a própria Previ numa condição minoritária nas estruturas societárias das teles onde tem participação.
A Polícia Federal apreendeu notas fiscais da Kroll Associates para a Telemig e a Brasil Telecom. Estas empresas financiaram o esquema de espionagem. Agora, aparecem notas da DNA Propaganda, de Marcos Valério, para a Telemig, Brasil Telecom e Amazônia Celular. Os sócios sabiam? ¿ Não tínhamos nenhum conhecimento disso. Foi uma surpresa para todo mundo.
É o dinheiro público pagando o esquema de espionagem do Daniel Dantas. ¿ Inclusive correndo o risco de nos envolver, enquanto sócios indiretos da companhia, a própria companhia, num esquema que hoje a Justiça acolheu a denúncia.
O senhor acha que o Daniel Dantas está envolvido com o pagamento do mensalão? ¿ A investigação tem de ser feita. Seria precipitado se dissesse que sim, mas há indícios nesse sentido. Competiria à CPI investigar a relação entre as empresas hoje geridas pelo Opportunity, a Telemig, a Tele Amazônia, em contratos com Marcos Valério, contatos entre estas pessoas. Existe um caminho bastante claro que precisa ser investigado.
Como é para a Previ ser sócia de Valério, indiciado por formação de quadrilha e suspeito de ser o financiador do mensalão? ¿ É uma associação ruim para a imagem de qualquer investidor.
Quais as conseqüências da decisão do TCU suspendendo o contrato dos fundos com o Citigroup? ¿ De imediato, nenhuma. Estranhamos essa decisão porque anteriormente o presidente do TCU havia nos dado um prazo para nos manifestarmos nesse processo e apresentar justificativa para esses contratos. Modificando essa decisão do TCU, veio essa nova decisão do relator suspendendo o contrato. Nos pegou de surpresa, não tivemos tempo de nos manifestar. Vamos procurar levar as explicações para o TCU.
A revista Carta Capital desta semana mostra que o texto da representação do deputado Alberto Fraga (PFL-DF) para o TCU é o mesmo de uma carta do presidente do conselho de administração da Brasil Telecom, Luiz Octávio da Motta Veiga. Quem copiou quem? ¿ É um caso surpreendente, em que aparentemente os textos vêm da mesma fonte, com as mesmas alegações. O Luiz Octávio obviamente defendendo seus interesses particulares, enquanto um gestor do Opportunity na companhia, e estranhamente um deputado usando os mesmos argumentos para supostamente defender interesses públicos. Parece que as coisas não casam, que há estranha coalisão de interesses. Não no interesse público ou no dinheiro do trabalhador, mas do interesse privado.
Se os fundos não tivessem fechado acordo com o Citibank, isto poderia representar prejuízo grande para os trabalhadores? ¿ Muito grande. Investimos na época das privatizações cerca de US$ 1 bilhão nestes fundos. Se não conseguíssemos vender isso por um preço de controle, se não conseguíssemos alinhar estes investimentos aos outros fundos, não teriam valor nenhum. Se alguém pode, comprando os outros investidores, adquirir o controle da empresa, porque alguém ia fazer uma oferta para a nossa participação? Então o risco que tínhamos antes do acordo com o Citibank era este, de que o controle da empresa fosse vendido para terceiros ou para o próprio grupo Opportunity, ou para a Itália Telecom, e virássemos minoritários de luxo.
Os trabalhadores do Banco do Brasil, que investiram US$ 1 bilhão, iam ficar só com papéis sem valor nas mãos. ¿ Exatamente.
O ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolatto diz que o senhor sofreu pressão do ex-ministro Luiz Gushiken para tomar decisão com base em interesse político, ao referir-se à disputa com o Opportunity pelo controle da Telemig. O ministro Gushiken chegou a pressionar o senhor? ¿ Não. Nós na Previ temos tomado nossas decisões dentro dos nossos deveres, de proteger o patrimônio. O que aconteceu num episódio específico foi a informação do Pizzolatto, de que haveria questionamentos e preocupações por parte do governo sobre certas decisões nossas. O que fiz foi consultar alguns ministros sobre isso. Mas justamente o que ouvi foi o contrário, de que não havia, e que o entendimento era que a Previ tinha toda a condição e até a obrigação de tomar as decisões que fossem de seu interesse.
O que diz o texto da auditoria da Previ sobre a lisura da privatização das teles? ¿ Identificou que algumas condições estipuladas pela diretoria, para realizar o investimento, não foram observadas por quem implementou aquela decisão. A diretoria havia definido que houvesse certas proteções para o investimento da Previ, que os parâmetros para a remuneração do administrador não fossem tão elevados, e isso não foi respeitado.
Isso é da época do Jair Bilachi? ¿ É. Isso foi da época daquela diretoria que estava aqui em 1998, onde o presidente era o Jair Bilachi e o diretor de Investimento era o João Bosco Madeiro.
Jair Bilachi é um homem totalmente ligado a Daniel Dantas, do Opportunity... ¿ Não posso afirmar com todas as letras. Posso dizer que o relatório da auditoria identificou que não houve o cumprimento exato das decisões da diretoria na época.
Isso trouxe prejuízo? ¿ Prejudicou, porque foram investimentos significativos na época, da Previ com outros fundos de pensão, da ordem de US$ 1 bilhão. E foram investimentos mal contratados, que geraram potencial de prejuízo.
Essa auditoria responsabiliza o Bilachi? ¿ Responsabiliza algumas pessoas aqui. Tenho restrições para falar. Mas responsabiliza pessoas que tinham autoridade para implementar estes negócios.
Os antigos administradores do Previ? ¿ É.
Em que pontos houve falhas? ¿ Na época, a diretoria havia determinado que na implementação do investimento a Previ tivesse representação em todos os órgãos societários das empresas em que estava investindo. Isso não foi respeitado.
O administrador ganhou mais dinheiro do que deveria ganhar? ¿ Poderia ter ganho. Na prática, não ganhou ainda porque não foram feitos os negócios. Isto poderia provocar uma remuneração maior para o administrador a partir de uma meta mais rebaixada de rentabilização do investimento.
Quais outros problemas a auditoria encontrou? ¿ O processo de construção das sociedades não foi acompanhado pela Previ. Isto permitiu que fosse definida uma estrutura societária que deixou a Previ e os investidores brasileiros numa condição minoritária, sem acordos contratados, que fizemos agora, com o Citi. Foram essencialmente estes três problemas, que reduziam a capacidade da Previ de acompanhar os investimentos e colocava em risco o investimento realizado.
Fica um passivo, um prejuízo ou em função da atuação política ficou no zero a zero para o trabalhador? ¿ Nossa expectativa é recuperar este valor. Estamos trabalhando para isso. Os contratos que firmamos traz essa possibilidade de recuperar o valor destes investimentos.
A auditoria detalha prejuízos? ¿ Não chega a falar de valores. É mais de princípios, de procedimentos.