Título: Polícia pode ter apagado imagens
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 23/08/2005, Internacional, p. A7

Um mês depois do assassinato de Jean Charles, o chefe da Scotland Yard, Ian Blair, encontra-se em seu pior momento desde que assumiu o posto, em janeiro. Intensificam-se as pressões para sua renúncia e as denúncias de que, sob sua supervisão, a polícia britânica teria tentado encobrir o erro que levou à morte do brasileiro. Ontem, foi a vez dos funcionários do metrô se defenderem. Além de confirmarem que pelo menos três das quatro câmeras da estação estavam funcionando, as fontes informaram que a polícia devolveu fitas sob análise alegando que estavam ''vazias''. A missão diplomática brasileira chegou ontem a Londres e já se reuniu com o comissário da polícia e o vice.

- Estamos aqui para ver como a investigação funciona - disse Márcio Pereira Pinto Garcia, do Ministério da Justiça, ao desembarcar no aeroporto de Heathrow, acompanhado do sub-procurador geral da República Wagner Gonçalves.

Os dois se reuniram com Ian Blair e John Yates, o vice-comissário-assistente da polícia metropolitana que no mês passado visitou Gonzaga (MG) para se encontrar com os pais de Jean. Yates voltou a pedir desculpas pela morte de Jean.

Um porta-voz da polícia britânica informou que a reunião foi ''positiva e construtiva'', mas não se restringiu aos detalhes do caso por causa da investigação da Comissão Independente para Queixas contra a Polícia (IPCC), em andamento. Como já havia adiantado uma fonte, o governo brasileiro não teve e provavelmente não terá acesso aos documentos sob análise.

Após o encontro, a Scotland Yard voltou a se contradizer e lançou nova versão em nota que só aumenta a suspeita de uma operação de encobrimento. Segundo a polícia, a família e o consulado brasileiro já sabiam das circunstâncias do erro, divulgadas na semana passada pela ITV, desde 24 de julho:

''À família de Menezes no Reino Unido foi informada que ele não correu para a estação, usou um ticket, não pulou a roleta e não usava um casaco pesado ou uma mochila''.

Os diplomatas têm uma reunião marcada para amanhã com representantes da IPCC, que na semana passada acusou a equipe de Ian Blair de atrasar sua entrada nas investigações.

O jornal britânico Evening Standard informou ontem que, segundo funcionários do metrô, pelo menos três das quatro câmeras da plataforma da estação estavam funcionando, diferente de uma das versões da polícia, segundo a qual não haveria imagens do episódio.

Não há registros de mau funcionamento de nenhum equipamento na estação de Stockwell. Um funcionário disse que problemas ocorrem só ''ocasionalmente'':

- Não entendemos como as quatro câmeras não registraram nada. Isso é, incomum, para dizer o mínimo.

De acordo com as fontes, policiais pegaram as fitas para análise e devolveram alegando ''não servirem'' por estarem ''vazias''.

Os funcionários ficaram surpresos e furiosos com a resposta. Temem que sejam injustamente culpados pela falta das cenas cruciais do episódio.

Segundo um porta-voz da Tube Lines, a empresa responsável pelo circuito interno de tevê do metrô, é improvável que houvesse algum problema:

- As câmeras estavam funcionando bem. Não temos registros de defeitos.

As novas revelações somam-se à enxurrada de denúncias contra a Scotland Yard, tornando mais claros os esforços para ''abafar'' o caso. No domingo, Ian Blair, a quem o premier Tony Blair deposita ''total confiança'', insistiu que, até 24h depois do crime, não tinha conhecimento da inocência do morto, o que fez deteriorar ainda mais sua reputação. Outra fonte de críticas foi a oferta de R$ 66 mil à família - recusada - como doação voluntária.