Título: Planalto negocia saída para disputa no PT
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Fonte: Jornal do Brasil, 24/08/2005, País, p. A3

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou ontem no circuito para evitar que a queda-de-braço entre o deputado José Dirceu (PT-SP) e o atual presidente do PT, Tarso Genro, imploda o partido e espalhe estilhaços para dentro do governo num raro momento de fôlego no Planalto. Em conversa com o ministro da Coordenação Política, Jaques Wagner, Lula disse que o governo precisava agir e o instruiu no sentido de encontrar uma saída negociada para a disputa interna no PT. À tarde, depois de discutir o assunto com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, Jacques Wagner ligou para Tarso, que participava de uma sabatina em São Paulo, e agendou para hoje uma audiência no Planalto. Na conversa, o ministro levaria a apreensão do presidente.

Uma das possibilidades em avaliação é o adiamento das eleições marcadas para o dia 18 de setembro. O Planalto reconhece, no entanto, que dificilmente haverá tempo para alterar a data do pleito, uma vez que não encontraria respaldo nas outras alas do PT.

Embora tenha até agora hipotecado total apoio a Tarso, o Planalto avalia que o presidente do PT exagerou na dose ao dar um ultimato público a Dirceu. O ex-ministro da Educação, Tarso Genro, presidente do PT, e o deputado José Dirceu compõem a mesma chapa - a do Campo Majoritário - para a eleição do próximo mês. Tarso havia dado um prazo até hoje para que Dirceu se afastasse da disputa eleitoral. Caso contrário, desistiria de concorrer à presidência do partido.

Auxiliares do presidente reconheciam ontem que o governo estava debruçado sobre um dilema: ao mesmo tempo em que deveria apoiar Tarso no processo de refundação do partido, não poderia jogar Dirceu aos leões pois até agora não haveria nada provado contra ele. Fora que uma ruptura no PT agora poderia se voltar contra o Planalto num momento em que luta para administrar uma crise que já dura mais de cem dias. Por isso a necessidade de uma saída negociada que contemplasse a ambos.

Ontem, o racha entre Tarso e Dirceu estava configurado a ponto de dirigentes do PT já admitirem a substituição de Tarso na chapa do Campo Majoritário pelo secretário-geral, Ricardo Berzoini, ou, numa hipótese mais remota, pelo ministro Luiz Dulci.

Se Tarso Genro impôs o ultimato, por outro lado, Dirceu não demonstra nenhuma disposição em ceder às pressões do petista gaúcho. A interlocutores próximos, afirma que ''não foi ele quem estabeleceu um prazo ou montou um circo político''. Dirceu confidenciou a pessoas próximas que até poderia pensar no assunto caso a discussão fosse colocada dentro de um cenário político. E não na base do ''ou ele, ou eu''.

O ex-ministro reclama aos amigos que sofre na legenda uma perseguição ainda maior do que a vivida na Câmara. Afirma que está sendo pré-julgado por Tarso, num movimento que poderia prejudicá-lo. Se nem o partido quiser seu nome na chapa do campo majoritário, Dirceu avalia que ficará difícil convencer a sociedade que é inocente no processo de cassação.