Título: Chávez capitaliza ameaça em votos
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Fonte: Jornal do Brasil, 25/08/2005, Internacional, p. A7
¿Fui mal interpretado¿. Essa foi a desculpa dada ontem de manhã pelo pastor evangélico americano Pat Robertson, que, na terça-feira, causou mais um desconforto diplomático entre Venezuela e Estados Unidos, ao sugerir, em programa de televisão, que Washington deveria assassinar o presidente Hugo Chávez. ¿ Disse que nossas forças deveriam ¿tirá-lo¿. E ¿tirá-lo¿ pode significar várias coisas, entre elas, seqüestrá-lo. Existem várias formas de remover um ditador do poder além de matá-lo ¿ explicou Robertson, tornando a emenda quase tão ruim quanto o soneto.
Mas o que o pastor disse na terça-feira está gravado e foi ao ar em seu programa, ¿The 700 Club¿:
¿ Se Chávez acha que estamos tentando assassiná-lo, penso que devemos fazê-lo. Não precisamos de outra guerra de US$ 200 bilhões para nos livrarmos de um ditador. É muito mais fácil usar agentes secretos.
À tarde, depois de outro dia de repercussão negativa, Robertson acabou pedindo desculpas em seu site.
Há anos Chávez vem afirmando que é alvo de um plano de assassinato por parte de agentes da CIA, o qual Washington nega veementemente. Até Robertson se tornar inimigo público declarado, o líder venezuelano tinha poucos motivos concretos para sustentar sua suspeita. Aparentando satisfação pela confirmação de suas denúncias, Chávez assumiu um tom blasé ao comentar a sugestão do pastor americano, durante a visita a Havana, onde se reuniu com o presidente Fidel Castro, outro desafeto histórico dos EUA:
¿ Não sei quem é esta pessoa, a desconheço. Tomaremos cuidado quando tivermos que ter cuidado. Estou aqui para falar da vida, estas coisas são mais importantes ¿ declarou o venezuelano na terça-feira, antes de viajar para a Martinica, onde ontem participou com o presidente francês, Jacques Chirac, da cerimônia em memória às 160 vítimas do acidente aéreo de Machiques, na semana passada.
A reação do alvo deixa claro que, antes de ser um perigo evidente, a ameaça de morte representa capitalização eleitoral. Segundo o Datanalisis, o principal grupo de pesquisas da Venezuela, a declaração de Robertson vai levar mais venezuelanos a acreditar que o governo de George Bush tenta matar Chávez. Este apoio extra pode ajudar a coalizão chavista a ampliar sua maioria no Congresso, nas eleições de dezembro.
¿ A fala do evangélico foi terrível para os EUA e maravilhosa para Chávez. É algo que ressoa entre os mais pobres ¿ explicou Luis Vicente León, diretor do Datanalisis.
De acordo com a mais recente pesquisa do instituto de Caracas, realizada com 1.300 pessoas entre 6 e 14 de maio, 71% dos venezuelanos apóiam o líder populista. León, entretanto, ainda não sabe o quanto esse número pode aumentar, agora que a ¿ameaça americana¿ ganhou um rosto.
Luis Christiansen, presidente-executivo do instituto Consultores 21, concorda: ¿a retórica o ajuda nas pesquisas¿:
¿ Contribui para exacerbar sentimentos nacionalistas e distrai os eleitores da discussão de outras questões.
Tais sentimentos nacionalistas vêm sendo alimentados desde 2002, quando um golpe de Estado arquitetado pela classe empresarial falhou em depor o presidente. Desde então, Chávez sustenta que quem está por trás das tentativas de desestabilizar seu governo são os EUA, que, de olho nas reservas de petróleo, financiariam a oposição
¿ Há anos Chávez martela na tecla de Washington como inimigo e está gradualmente mudando a percepção do povo. Os EUA eram admirados por aqui. Mas agora as pessoas dizem que não gostam dos americanos ¿ disse Robert Bottome, do grupo de pesquisa Veneconomy, de Caracas.