Título: O interrogatório
Autor: MAURO SANTAYANA
Fonte: Jornal do Brasil, 26/08/2005, País, p. A2

A convocação de Daniel Dantas às duas comissões parlamentares de inquérito em curso - a dos Correios e a do Mensalão - é o passo mais sério em direção ao conhecimento do que vem ocorrendo no Brasil, nestes últimos 10 anos. Devem os parlamentares se preparar para o confronto com um homem de rara inteligência e conhecida ousadia. Além disso, o poderoso banqueiro contará com os melhores advogados que o seu dinheiro e suas relações podem recrutar. É de se esperar, assim, que seja interrogado pelos parlamentares mais hábeis, de maior experiência e mais sólida reputação. O que poderá quebrar a soberba de Dantas será o fundamento ético da questão. É previsível que o banqueiro argumente que agiu de acordo com a lei e as portarias do Banco Central, embora haja indícios de que, em alguns casos, a lei possa ter sido violada. Mas não se trata apenas de uma questão legal. Trata-se de um problema grave de natureza ética e política. É preciso saber se os negócios de Dantas foram favorecidos, ou não, pelo governo. É necessário investigar se os dirigentes da política econômica o ajudaram, ou não o ajudaram, em sua acelerada carreira nos negócios. Ainda que haja rumores do envolvimento do Banco Opportunity e de empresas que controla com o atual governo, a atuação de Dantas foi muito mais abrangente na administração anterior. Foi nesse período que os seus negócios cresceram, em associação com os fundos de pensão e consórcios multinacionais. E não é segredo para ninguém que Dantas sempre contou com a proteção de poderosos homens públicos deste país. Ele sempre foi íntimo de senadores, deputados, ministros de Estado. Sua ascensão se iniciou ao associar-se aos meninos de ouro do governo passado, que conduziram, com Malan, a administração pública, ao controlar os recursos do Estado, enquanto o presidente reinava - se podemos adaptar ao caso a famosa frase de Thiers sobre a monarquia constitucional de seu tempo.

Será este o teste decisivo da seriedade das investigações em curso. Dantas conta, nas duas comissões, com escudeiros atentos e fiéis. Como disse um parlamentar, ele é "suprapartidário". Afinal, em que se distinguem o PSDB e o PFL? Como o Tartufo, de Molière, ele agarra a sua oportunidade onde a encontra. E ele a tem encontrado em quase todos os partidos, menos naqueles menores, que, até agora, têm dado o testemunho da boa conduta política. Mas é inegável que os seus melhores amigos se encontram no PFL e no PSDB. Conta também Dantas com excelentes amigos nos meios de comunicação, principalmente aqueles que, tratando especificamente das questões econômicas, admiram seu perfil vitorioso.

A maior blindagem, no entanto, é a intimidade com o anterior presidente da República. Se os inquisidores, no cumprimento do dever moral, souberem interrogar Dantas, será difícil não chegar a algumas personalidades um pouco misteriosas do governo anterior e ao processo de privatização das empresas estatais. Uma delas é Ricardo Sérgio, tantas vezes citado em suspeitas de favorecimento aos consórcios montados "para valer", no BNDES. Nos montados para valer, porque havia os outros, que eram criados para engambelar os otários, e recebiam a rasteira na hora certa - de acordo com conversa telefônica grampeada e divulgada na época.

Há visível esforço em anistiar o passado recente. Frustrou-se, agora, a CPI da privatização do sistema elétrico - que envolveria também Dantas. O banqueiro se associou à AES, a fim de obter o controle da Cemig, e detém 3,3% do capital votante da empresa. O exame da privatização das empresas de energia elétrica conduziria a outros negócios do governo anterior, no qual muito dos bens nacionais, obtidos pelo trabalho de todas as gerações de brasileiros, foram entregues, a preço de liquidação, aos investidores privados, estrangeiros e nacionais.

Estamos diante de um grande momento. Ele poderá abrir o caminho para a restauração de alguns valores na vida política, ou deixar o país entregue a esses mesmos homens.