Título: Um jeito de sair do Iraque
Autor: Carolyn Hayman
Fonte: Jornal do Brasil, 28/08/2005, Internacional, p. A14

Pelo menos um ponto foi alcançado no Iraque onde todos ostensivamente desejam a mesma coisa: a partida das forças de ocupação do país. O recente vazamento de um documento do ministério da Defesa da Grã-Bretanha no qual se discutia a retirada ampliou ainda mais esse desejo. A única questão agora é como poder satisfazê-lo. Enquanto as tropas estrangeiras permanecerem, a violência seguramente continuará crescendo. Se forem embora, também haverá uma escalada violenta, só que mais rápida ainda. Então a questão real é como chegar ao ponto no qual o Iraque tenha uma força policial e um Exército no qual se possa confiar para manter tanto a lei quanto a ordem.

Muito chão ainda terá de ser percorrido até que se chegue a algum lugar. A despeito da coragem de muitos iraquianos que se juntaram ao Exército e à polícia, ninguém deveria ficar surpreso se alguns tiverem motivos impuros para isso. No Norte do país, antigas características estão sendo desfeitas e a segregação étnica, introduzida em áreas como Arbil, tradicionalmente diversificada. Em outras regiões, a lei islâmica está sendo imposta.

Como pode o Iraque, então, criar uma força policial confiável, que garanta a lei efetiva e imparcialmente, sem considerar etnia, religião ou gênero? A resposta tradicional é recrutar, ensinar e incutir ¿valores corretos¿. Mas não há tempo suficiente para isso. São necessárias alternativas.

Na ausência de um sistema de valores profundamente introduzido, o Iraque precisa buscar as raízes de organizações da sociedade civil que irão preparar a polícia e o Exército. Isso poderia acontecer de diferentes formas, mas o importante é que as duas instituições sejam verdadeiramente incluídas em nível local e que recebam apoio de estruturas de poder regionais e nacionais. Se houver um escrutínio local, o reconhecimento desse escrutínio e o fortalecimento nacional, os membros dessas forças possivelmente terão comportamento apropriado.

Isso pode ajudar também no Afeganistão, um país parecido com o Iraque e no qual grupos trabalham com esse objetivo. A Corporação para a Paz e a Unidade (CPAU) oferece um modelo. Tanto no Afeganistão como no Iraque, a prioridade da população tem sido reduzir a violência. A CPAU vem trabalhando no país nos últimos três anos para instalar comitês distritais para a paz.

A iniciativa esbarra numa cultura na qual a violência está tão embutida que crianças aprendiam matemática contando o número de soldados soviéticos mortos. Esses comitês buscam unir os diversos setores da comunidade ¿ como professores, líderes tribais, religiosos, mulheres, policiais, soldados, juízes e empresários ¿ para desenvolver formas não-violentas de resolver conflitos.

Apesar do monitoramento ainda não estar presente formalmente no papel do comitê (há planos para o futuro), o fato de a polícia, o Exército e o judiciário fazerem parte do trabalho dessas estruturas, o coloca em contato com o resto da comunidade, trazendo retorno e construindo confiança.

Alguns resultados são excelentes. Em um seminário, o comandante militar local veio para apenas algumas horas e acabou ficando por uma semana. No final, ele se desculpou por seu passado violento e fez um juramento de que iria desarmar seu exército privado de dois mil homens. O comandante agora visita o comitê regularmente.

No Iraque, projetos como o do Centro de União Humanitária, em Kirkuk, começam a desenvolver o monitoramento oferecendo à diversidade étnica local a oportunidade de trazer descontentamentos e receberem apoio para resolvê-los. Mas, freqüentemente, mesmo quando há processo judicial a estratégia não ganha força devido à intimidação da população.

Um trabalho muito bom, em termos de fortalecimento da sociedade civil, já foi feito por forças americanas e britânicas. Mas, ainda não temos notícia de seminários para fortalecer o papel da mulher ou sobre eleições locais bem-sucedidas em todo o país.

Mobilizar a sociedade é um desafio enorme, especialmente quando é preciso ser feito rapidamente e em larga escala, como agora.

As forças militares ainda são necessárias, mas há incentivos para que se desarmem, incluindo oportunidades econômicas que sejam mais rentáveis que o crime ou a extorsão.

Felizmente, construir a aptidão da sociedade civil é tão barato quanto importante. O Centro de União Humanitária serve à cidade de Kirkuk pelo custo anual de apenas US$75 mil. Com US$10 milhões, essas organizações poderiam ser multiplicados por 100.

O desafio é se comprometer com a integração e apoiar essas pessoas corajosas que aceitam a missão de assumir o poder. Caso contrário, os iraquianos provavelmente não terão a segurança que, depois de tantos anos de sofrimento, precisam deseparadamente. (Project Syndicate)