Título: O PT e a ética
Autor: Jarbas Passarinho*
Fonte: Jornal do Brasil, 30/08/2005, Outras Opiniões, p. A11
De todos os petistas ouvidos na CPI dos Correios, a figura mais arrogante tem sido o professor Delúbio Soares. A garantia que lhe dá o habeas corpus com que o Supremo lhe impede de ser preso se negar-se a responder o que possa incriminá-lo, parece dar-lhe também um direito que não tem: o da desfaçatez e não raro o de desacatar os inquiridores, ou seja, a própria CPI, que lhe tolera o abuso. O professor secundário de matemática proporciona, também, respostas que revelam ignorância do que é política. Não que eu dele espere ter lido a Súmula Teológica de São Tomás, onde se define a finalidade da política como sendo o bem comum. Preferiu concluir que a finalidade da política é o bem de si próprio e o do seu partido.
A uma pergunta mais forte, replicou com ares de homem de bem ofendido: ''Não roubei. Fiz tudo pela política''. Nesse tudo - não confessa, mas está praticamente confirmado pelos fatos - incluiu a compra de votos pelos desqualificados parlamentares que se venderam, ou melhor, se deixaram alugar (pois não dão garantia ao pagador senão enquanto o aluguel for pago) para votar tudo o que o governante tem transformado em lei. Nenhum cliente do mensalão confessará o crime que implicaria imediatamente a cassação do seu mandato. Teremos, pois, de conviver com essa espécie de gente por mais tempo, e dar-lhe o tratamento respeitoso de Excelência.
Política, para o mestre provinciano de matemática, é lesar a ética, incapaz de distinguir entre o bem e o mal, tanto que totalmente afastado do giz das salas de aula ou das incômodas instalações da escola, continuava recebendo seu salário, parco sem dúvida, mas que os outros professores para recebê-lo devem inspirar diariamente o pó do giz. Disso, o arrogante Delúbio nem precisava, pois tinha fonte de renda muito superior. O PT nunca foi um partido, mas um conjunto de facções de filiações ideológicas diversas agrupadas sob a mesma bandeira vermelha. São velhos comunistas partidários da luta armada que provocaram e onde foram vencidos principalmente faltos de apoio popular; a esquerda católica, AP, de um militante terrorista que fez explodir a bomba que visava matar o marechal Costa e Silva no aeroporto de Recife; a dos ideólogos, em boa parte trotskistas e marxistas-leninistas, de quem Raymond Aron dizia escravos do ''ópio dos intelectuais'', em contraposição à frase de Marx de que a religião era o ópio do povo; sindicalistas de todo tipo, de arrivistas a sinceros; e estudantes idealistas liderados por esquerdistas radicais dispostos a matar e a morrer contra um regime autocrático, mas treinados nas ditaduras totalitárias da Cortina de Ferro. Essa geléia real é o PT. Daí o desencanto e a revolta das diversas esquerdas, notadamente a dos comunistas que dizem que ''os erros do PT têm conseqüência mais danosa que a derrota de 1935, porque não é só o PT que se desmoraliza, mas também o patrimônio dos princípios éticos dos comunistas que, mesmo criticados ideologicamente eram respeitados por suas virtudes éticas, a exemplo de Prestes que morreu pobre''. Respeito a dor desses que ainda não temem chamar-se comunistas, mas cabe lembrar que essa virtude ética não existiu sempre em governos comunistas. Stalin, se não roubou, forçou confissões de crime de inocentes, torturou-os e os mandou matar. Ou a ética teleológica julga as ações por suas conseqüências ou nada tinha de ética o tenebroso ditador. E não só ele.
O erro histórico do PT dificultará as esquerdas de voltarem ao poder tão cedo. Tarso Genro irritou Lula quando respondeu a uma adolescente que não poderia, no momento, dar-lhe argumento para votar no PT na próxima eleição. Apesar da ressalva (por enquanto), não agradou a sinceridade. O último baluarte da ética petista- o ministro Palocci - está sob dúvida. Li uma passagem da atuação de Artur Bernardes, quando deputado federal. Irritadíssimo com uma acusação desonrosa, vociferava no plenário. Em aparte, um deputado recriminou-lhe as duras palavras que pronunciava. Artur Bernardes respondeu socorrendo-se de Cícero. Procurado por alguém, que se dizia brutalmente caluniado, desejava que o grande orador grego lhe patrocinasse a causa. Mas ao descrever a calúnia, fê-lo com a voz inalterada. Cícero respondeu-lhe que não o defenderia. Por quê? - perguntou o queixoso. Porque o senhor não se revela indignado. O ministro Palocci também não se mostrou indignado com a denúncia de seu antigo assessor e posterior secretário na prefeitura. Buratti - o denunciante - confirmou o que dissera ao Ministério Público. A propina existiu, sim, todo mês, mas entregue ao Secretário de Finanças da prefeitura (convenientemente já morto) e transferido para Delúbio. Mas o prefeito não sabia. Também Dirceu não sabia do assalto aos cofres públicos. Lula, muito menos. Somos, pois, a república dos que não sabem...
*Jarbas Passarinho escreve nesta página às terças-feiras, a cada 15 dias