Título: Ruanda tenta esquecer o passado
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Fonte: Jornal do Brasil, 31/08/2005, Internacional, p. A14

Foram 30 dias nos chamados ''campos de solidariedade'', onde receberam aulas de ''reconciliação'' mês passado. Ontem, mais de 20 mil prisioneiros que confessaram a participação no massacre de Ruanda em 1994 começaram a voltar para suas casas, na segunda ação do gênero feita pelo governo do país - em 2003, mais de 30 mil foram libertados.

Os homens e mulheres que saíram da prisão ontem ficarão em liberdade até serem julgados por um sistema local conhecido como ''gacaca'', uma espécie de tribunal popular em que a comunidade decide seu destino. Nesse sistema, o réu é levado até o local em que cometeu o crime para prestar depoimento diante de um grupo de juízes escolhidos por moradores locais. São eles quem vão determinar o veredito. A pena pode variar de prisão temporária ou perpétua à prestação de serviços comunitários.

Esse mês, cerca de 800 prisioneiros já julgados pelos ''gacaca'' começam a cumprir suas penas. Segundo o sistema, aqueles que confessaram seus crimes são privilegiados e podem obter a redução da pena. Nesses casos, alguns réus podem ser condenados a passar na cadeia menos tempo do que já cumpriram desde a matança.

Segundo as autoridades de Ruanda, não há entre os presos libertados acusados de terem planejado o massacre que matou cerca de 800 mil pessoas há 11 anos. Muitos são cidadãos comuns que atacaram os tutsis e hutus moderados manipulados pelas autoridades hutus, líderes locais e até pela rede de rádio e televisão Mille Colines, que ne época incentivou os crimes em transmissões ao vivo.

Em conseqüência à mobilização nacional, logo após o genocídio, o número de presos passou rapidamente de 100 mil, que se amontoaram em prisões condenadas publicamente pela Anistia Internacional por serem ''cruéis, desumanas e degradantes''. Foi quando o governo percebeu que demoraria mais de 100 anos para levar todos os presos a júri e começou com o julgamento popular, antigo costume ruandês.

Como aconteceu depois da primeira leva de prisioneiros libertados, as associações dos sobreviventes da matança manifestaram ontem preocupação com a medida. Temem que os libertados possam tentar intimidar testemunhas em potencial e o trauma que será gerado pelo reencontro com os parentes das vítimas.

Há, ainda, o temor de que algumas confissões tenham sido mentirosas, numa tentativa de atenuar os crimes cometidos. A essas associações, o governo garante que foi feito um trabalho preparatório para a libertação.

- Esse exercício foi realizado cuidadosamente, e foram feitas campanhas de sensibilização em todo o país - garantiu a ministra da Justiça, Edda Mukabagwiza.

No outro extremo estão os próprios prisioneiros, que, embora tenham festejado sua libertação dançando pelas ruas, estão preocupados com a volta para casa. Alguns temem encontrar seus maridos e esposas com novos companheiros. Outros, a reação da própria comunidade onde vivem.

- O problema é que as pessoas não confiam em quem passou tanto tempo na prisão. Têm medo de nós - disse um dos libertados que confessou participação no massacre e se identificou apenas como Eric.

- Nós os ensinamos a resolver conflitos. Esperamos que eles consigam resolver esses problemas - comentou ontem o gerente dos campos de solidariedade, Fidele Gatsinzi.