Título: Vias opostas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 01/09/2005, Opinião, p. A10
Não bastassem as erráticas ações que levaram o Partido dos Trabalhadores ao sinistro envolvimento com maracutaias eleitorais e aluguel de voto parlamentar, parte do grupo que comandou a legenda nos últimos dez anos resolveu aplicar outro golpe. O alvo é a única fortaleza a sustentar o equilíbrio governamental: a política econômica. Em espantosa declaração, o deputado Ricardo Berzoini afirmou que o PT não aceitará que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se apresente para um segundo mandato com o mesmo programa econômico conduzido no atual mandato. Berzoini rejeita, por exemplo, os princípios defendidos ainda na Carta ao Povo Brasileiro, o documento assinado por Lula em 2002, que livrou o então candidato petista dos temores do mercado. Pelas críticas, parece discordar também da responsável condução da economia, um dos fatores que tem permitido ao país atravessar a turbulência política sem desastres adicionais nos mercados. Em plena crise, afinal, o Brasil apresenta na economia resultados senão notáveis, pelo menos melhores do que as expectativas.
As declarações de Berzoini justificam-se, entre outros fatores, pela vocação petista para a luta fratricida, que descolore o partido dia a dia, a miopia do grupo que diz representar e a presença insistente nos bastidores do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. Berzoini, sublinhe-se, tornou-se candidato à presidência do PT depois da desistência de Tarso Genro, e a confirmação de sua candidatura serviu para escancarar que Dirceu continua a mandar no partido - apesar de ser um dos principais responsáveis por levar a legenda à ruína moral atual.
Conforme ressaltou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, o PT erra ao criticar a atual condução da política econômica do governo. Acertadamente, o ministro lembrou que o partido está com baixa credibilidade para fazer tal ataque - enquanto a economia mantém sua rota em compasso firme. Mais: a mudança de rumo sugerida levará o PT a ter alguém de oposição ao presidente Lula como candidato à Presidência da República. Sinal dos tempos: Lula e parcela musculosa do partido que sempre liderou trafegam em vias cada vez mais opostas.