Título: Selvageria toma conta de refúgio
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 02/09/2005, Internacional, p. A9

Crianças dormem em meio ao lixo. Saquinhos de cocaína entopem os sanitários. Nas paredes ao lado das máquinas de refrigerante destruídas por adolescentes há manchas de sangue. Há registro de, pelo menos, dois estupros e um suicídio. O Superdome, até a semana passada um moderno estádio esportivo, se tornou palco do terror das mais de 20 mil pessoas que lá buscaram abrigo após a chegada do furacão Katrina.

Ontem, a Guarda Nacional se viu obrigada a suspender a retirada dos refugiados do local, depois que um helicóptero e um reservista foram atingidos por tiros de rifle. Outros dois homens foram baleados no dia seguinte ao roubo de todas as armas da loja de departamentos Wal Mart.

- Estamos como animais, urinando no chão - contou Taffany Smith, embalando o filho de três semanas, Terry.

Com a outra mão, segurava uma preciosa garrafa de água mineral - objeto de disputas que chegam à agressão.

Também há relatos de que pelo menos duas pessoas, inclusive uma criança, foram estupradas na madrugada de ontem. Outras três morreram, entre elas, um homem que pulou de uma altura de 15 metros, gritando que não tinha mais razão para viver. Durante o dia, foram encontrados sete corpos próximo ao estádio.

- Não se trata nem cachorro desse jeito. Eu enterrei meu cão - gritava Daniel Edwards, apontando para uma idosa, morta em uma cadeira de rodas, sem socorro.

- Tem fezes nas paredes - contou Bryan Hebert.

Os suprimentos também estão escassos. As rações diárias foram limitadas a um quarto de litro de água e duas quentinhas (escolha entre espaguete, frango tailandês e jambalaya, ensopado de carne tradicional da região) por pessoa. Não é o suficiente.

Vários esperam que o pior passe logo, sentados nas cadeiras de fibra de vidro do estádio que, como o resto da cidade, não tem energia elétrica. Por causa do calor e do cheiro fétido, outros preferem dormir fora, no terraço, e alguns tiraram a roupa e passaram a andar nus pelo local.

Sem o mínimo de ordem, a violência impera. Stacey Bodden, de 11 anos, conta que os tiros começaram na terça-feira à noite. Seu tio, David Rodriguez, ouviu na noite passada pelo menos sete disparos e viu um homem correndo armado.

April Thomas, que se refugiou no Superdome com os 11 filhos, instituiu um sistema de rodízio para o sono da família:

- É um hospício, aqui. Temos que afastar os agressores constantemente. Temos que lutar pela vida. Quando acordo, a primeira coisa que penso é: ''Onde estão os meus filhos. Estão todos aqui?''

Cerca de 500 homens da Guarda Nacional foram deslocados para colocar ordem no Superdome. Mas a tarefa é difícil para os reservistas, que vêm dormindo poucas horas por noite e trabalhando com poucos recursos e infraestrutura.

- As vítimas têm a impressão que nós temos tudo e eles não têm nada - afirma o sargento John Jewell. - Digo para eles: ''Estamos todos no mesmo barco. Estamos sobrevivendo, como vocês''. Mas vários perdem a razão e a paciência.

O major Ed Bush demonstra pessimismo:

- Fizemos tudo o que podíamos. Não sabemos por mais quanto tempo vamos agüentar. Agora é agarrar o que se tem e tentar sair do Superdome.

Para piorar ainda mais a situação, a Acadian Ambulance, companhia que era responsável pela retirada de feridos e doentes do Superdome, suspendeu o operação, ''até que seja recuperado o controle da situação''.

Para o prefeito Ray Nagin, a única esperança é retirar todas as pessoas do estádio o mais rápido possível. A maioria dos refugiados vai para Houston. Outros serão levados a cidades de Louisiana que escaparam do Katrina.

- Eles precisam ver que há saída para essa situação, precisam ver os companheiros tomando os ônibus. Quero começar a criar um sentimento de esperança - diz o prefeito.