Título: Inteligentes, mas nem tanto
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 05/09/2005, País, p. A2

A natureza não conhece o bem e o mal e se manifesta de forma devastadora, de acordo com as próprias leis. Terremotos, furacões, maremotos, tempestades são espasmos da Terra e da película gasosa que a envolve. É provável que tais ocorrências obedeçam a processo que poderíamos atribuir a alguma razão lógica, e é possível que tudo ocorra por acaso. Sempre houve desastres ecológicos, de acordo com as investigações científicas, mas é também provável que os mais recentes estejam sendo provocados pelo sistema de vida que adotamos nos últimos 150 anos, com a frenética exploração dos recursos naturais. Três têm sido os principais movimentos do progresso tecnológico: o conforto, a velocidade e a supremacia militar. Mas o processo de desenvolvimento industrial, como é sabido, traz algumas dificuldades. Nem tudo é de custo tão barato que possa universalizar-se, como ocorre com os telefones celulares. Não há, por exemplo, a possibilidade de que todos os bilhões de habitantes do mundo tenham seu próprio carro: faltam metais para produzi-los e combustível para movê-los. Em ensaio sobre a história da máquina, Adam Smith diz que as máquinas, em sua evolução, eliminam todas as engrenagens desnecessárias: estão também sujeitas à lei do menor esforço. Todo o processo industrial segue a mesma lei, por ser a máquina das máquinas. Assim como os instrumentos de produção eliminam os movimentos dispensáveis, as organizações empresariais eliminam a mão-de-obra que as máquinas dispensam. Mesmo nas sociedades mais prósperas, como a americana, grandes contingentes humanos são marginalizados. As imagens de Nova Orleans mostram que, 140 anos depois do fim da Guerra de Secessão, o norte e o sul continuam sendo o sul e o norte. Não houve a integração real das duas regiões do país. O sul continua com sua população predominantemente negra e pobre. E, se aceitarmos as denúncias dos próprios americanos, com a população sendo tratada com certo desprezo pelo governo federal. O caso da Louisiana é ainda mais emblemático. Toda a imensa área foi comprada de Napoleão pelos americanos em 1803, da mesma forma que a Flórida seria adquirida dos espanhóis 13 anos mais tarde. É uma realidade mal absorvida pelos descendentes dos pioneiros do Mayflower, uma integração movida por interesses econômicos e estratégicos específicos de anexação territorial e controle da boca do Mississippi. Para obter o território, tiveram que aceitar seus habitantes. A cultura de Nova Orleans não é a mesma dos Estados do Norte: é a dos negros e mestiços das ilhas francesas do Caribe, ajustada às contingências históricas da mudança de colonizadores.

O drama dos flagelados de Nova Orleans, com cenas de retorno à luta brutal pela sobrevivência e o desespero dos que matam, saqueiam e morrem, é também o aviso cósmico de que somos apenas bichos que mal conseguiram sublimar seus instintos com os contratos políticos de solidariedade tribal. Quando essa solidariedade não é mais possível, por falta de recursos e de líderes, as convenções deixam de viger.

Depois das tsunamis e de alguns terremotos, o maremoto da foz do Mississippi é advertência para toda a Humanidade. Nenhum povo, por mais poderoso que ele seja, está protegido contra as potências naturais. E o fato de que, pela primeira vez na História, os Estados Unidos peçam socorro ao mundo é também outro aviso sério: não será a ordem imperial e hegemônica que manterá, não sabemos mais por quanto tempo, a vida na Terra. O que nos pode salvar é a solidariedade. Primeiro, a solidariedade com os que estão mais próximos: os vizinhos, os habitantes da mesma cidade, do mesmo estado, da mesma nação. E, quando for o caso, com os seres humanos de qualquer lugar do mundo. Estamos na mesma esfera, que, arrastada pelo sistema solar e pela galáxia, se desloca em universo feito de trilhões e trilhões de imensos flocos de gases em combustão e corpos rochosos, esparsos e gelados. Até que as hipóteses de poucos astrofísicos venham a ser confirmadas, a esfera em que estamos é a única dotada de seres inteligentes. Inteligentes, mas nem tanto.