Título: A revisão do futuro
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 05/09/2005, Opinião, p. A10
Um dos principais formuladores do Partido dos Trabalhadores e um de seus críticos mais lúcidos, o ex-ministro Tarso Genro ofereceu ontem, nas páginas do Jornal do Brasil, uma notável lição aos petistas e demais eleitores - desesperançados ou não com os rumos da legenda. Até poucos dias atrás candidato à presidência do partido - pretensão da qual desistiu por discordar da permanência do deputado José Dirceu na chapa que concorre ao Diretório Nacional -, Genro analisou, com a racionalidade habitual, o passado e o futuro do PT. De um lado, as deformações do partido - decorrentes de erros, enganos e escorregões promovidos por seus dirigentes; de outro, as exigências para que se volte a pensar num futuro político, programático e moral mais vistoso para a esquerda brasileira e para um eventual segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ''A antiga maioria não tem mais condições de governar o PT'', sugeriu o ex-ministro em entrevista a Leila Youssef e Israel Tabak. ''Precisamos resgatar nossa relação com a ética pública e mudar os métodos, a partir de um núcleo dirigente completamente renovado''.
Os métodos a que se referiu o presidente interino do PT se revelaram o atalho mais eficaz para a degeneração de um partido cujos militantes acreditaram na deflagração da mudança em hábitos seculares e abomináveis da política nacional. Constata-se, porém, o sentimento de derrota e choque moral de uma geração diante do apetite do poder de seus dirigentes, uma voracidade capaz de converter o antigo ''partido da ética'' em mais do mesmo. Não à toa, Genro, depois de ser chamado a atuar como o bombeiro frente à ameaça de implosão petista, expôs a necessidade de uma ''refundação'' radical - na qual se inclui a renovação do comando e a punição política e judicial dos artífices de odiosas negociatas.
A percepção do presidente interino do PT é especialmente relevante para um ambiente turvado pelos interesses eleitorais imediatos. A eleição interna petista, afinal, constitui um terreno fértil para retrocessos no processo de amadurecimento da legenda. O recado do ex-ministro é claro e acertado: para manter-se competitivo, o PT precisará renovar-se - uma mudança que traria dividendos ao governo que comanda, sem deformações programáticas na coalizão e sem desvios morais na arrecadação de campanhas eleitorais e na ocupação do Estado brasileiro.
O comportamento de muitos de seus caciques, no entanto, contradiz a sensatez de Genro. Por um lado, seu líder máximo continua mirando no retrovisor e, enquanto perde musculatura eleitoral, recusa-se a descer do palanque. O presidente Lula não administra; faz política. Por outro lado, o partido apresenta dificuldades de expulsar quadros já claramente expulsos da vida política pela opinião pública. Some-se ainda a insistência, de vozes ineptas, na retomada de debates já superados - como o bizantino questionamento dos balizadores da política macroeconômica.
Dificilmente o PT sairá do atual purgatório com uma unidade que nunca lhe foi cara. Policlassista, como ressaltou Tarso Genro, o partido não vai - nem deve - tornar-se monolítico. Livrar-se da crise, contudo, exigirá a redefinição do seu programa. Se assim o fizer, não mais poderá ser acusado de trair as idéias do passado ou renegar o petismo. Ao contrário, se revitalizará para o futuro. É um caminho inevitável para os partidos que chegam ao poder, sobretudo os originários da esquerda. Há casos similares, como os trabalhistas ingleses e os socialistas espanhóis, que se mostraram corajosos para modernizar um programa que envelhecia.
Aos petistas - divergentes ou não das novas premissas - restará a missão redimir-se dos pecados ou assumi-los em definitivo.