Correio Braziliense, n. 21522, 18/02/2022. Política, p. 3
Lema fascista e declaração falsa
Cristiane Noberto
Em visita à Hungria, ontem, o presidente Jair Bolsonaro (PL) chamou de “irmão” o líder de extrema direita do país, o primeiro-ministro Viktor Orbán. O chefe do Executivo usou lema fascista no encontro e mentiu sobre dados de desmatamento na Amazônia.
No pronunciamento conjunto, em Budapeste, Bolsonaro disse que Brasil e a Hungria compartilham os mesmos valores e citou frase de fascistas brasileiros da década de 1930: “Deus, pátria, família e liberdade”. A última palavra foi incluída pelo presidente ao lema da Ação Integralista Brasileira (ABI).
Bolsonaro também chamou Orbán de irmão, “dadas as afinidades” em “praticamente todos os aspectos”. “Comungamos, também, na defesa da família com muita ênfase. Uma família bem estruturada faz com que sua sociedade seja sadia. Não podemos perder esse foco”, enfatizou. O premiê é o principal responsável pela guinada autoritária vivida na Hungria.
Orbán está em seu terceiro mandato. Ele usou seu poder para influenciar o Judiciário e o Legislativo. Substituiu juízes das cortes superiores por aliados, fez alterações na lei eleitoral em benefício próprio e censurou jornais independentes, obrigando-os a reproduzir conteúdos estatais. O premiê também atuou nas escolas, colocando livros didáticos com conteúdos polêmicos.
No seu discurso, o premiê frisou que Bolsonaro compartilha da sua visão sobre imigração e que ambos coordenam esforços para combater propostas de acordos internacionais que favoreçam imigrantes (leia reportagem ao lado).
Antes da visita a Orbán, Bolsonaro se encontrou com o presidente do país, János Áder. No pronunciamento, o brasileiro afirmou que a maior parte da conversa teve como foco “a questão ambiental”. O chefe do Planalto, por sua vez, sustentou que o Brasil preserva “63% do nosso território”. “Nós nos preocupamos até mesmo com o reflorestamento, coisa que não vejo nos países da Europa como um todo. Então, essa informação, essa desinformação passa para o lado de um ataque à nossa economia, que vem, obviamente, em grande parte do agronegócio”, frisou. Ele já usou esse número outras vezes, mas, na verdade, a porcentagem diz respeito a áreas de pasto que voltaram a crescer — a chamada cobertura vegetal secundária.
Bolsonaro negou que haja desmatamento na Amazônia. “Eu tive a oportunidade de falar para ele o que representa a Amazônia para o Brasil e para o mundo e (dizer) que, muitas vezes, as informações sobre essa região chegam para fora do Brasil de forma bastante distorcida, como se nós fôssemos os grandes vilões no que se leva em conta a preservação da floresta e sua destruição, coisa que não existe”, afirmou.
Na semana passada, o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostrou que a Amazônia voltou a registrar volume recorde de desmatamento. Em janeiro, foram destruídos 430 quilômetros quadrados de floresta nativa. A alta é de 418% em relação ao mesmo mês do ano passado.
O presidente brasileiro também voltou a insinuar que sua visita à Rússia poderia ter contribuído para o apaziguamento das tensões na fronteira com a Ucrânia. Bolsonaro disse que não conversou sobre o assunto com o governante russo, Vladimir Putin, mas que debateu o tema com Orbán e passou o “sentimento” da viagem. “Foi uma reunião bastante útil. Além de assinarmos alguns acordos, trocamos informações sobre a possibilidade ou não de uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Passei para ele o sentimento que tive dessa viagem”, relatou. “Entendo, sendo coincidência ou não, como um gesto de que a guerra realmente não interessa a ninguém.”
Aliança
Na avaliação de Vinicius Bivar, historiador e pesquisador do Observatório da Extrema Direita, Orbán é um modelo para o presidente brasileiro. “Ele esteve na posse de Bolsonaro e enxerga com bons olhos a existência de um governo de viés iliberal em um país com a relevância diplomática do Brasil”, disse. “Para Orbán, como para Bolsonaro, essa aliança confere legitimidade doméstica e internacional aos seus governos, que buscam demonstrar que não estão diplomaticamente isolados”, afirmou.
Ainda segundo o especialista, a visita cumpriu, também, um papel eleitoral e sinalizou para o público mais radical de Bolsonaro. “As declarações dadas na Hungria, apelando a um tom mais ideológico junto a um líder percebido pelo eleitorado mais radical do Bolsonaro como aliado nesse campo, visam sinalizar para parte da base do presidente o compromisso com essas pautas e a existência de aliados internacionais que o apoiarão na promoção dessas agendas”, ressaltou. “Acredito que a visita traga mais benefícios a Bolsonaro e a sua campanha de reeleição do que ao Brasil.”
De acordo com o Itamaraty, foram assinados três memorandos de entendimento nas áreas de defesa, gestão de recursos hídricos e saneamento (leia reportagem abaixo). “A Hungria se beneficia ao demonstrar que possui aliados dispostos a apoiar diplomaticamente a sua agenda. Essa é uma pauta central para o governo Orbán e para a direita radical populista europeia de maneira mais ampla. Como Bolsonaro, Orbán tem uma imagem internacional desgastada, associada ao desrespeito às instituições democráticas e às violações de direitos humanos”, explicou Bivar. “O Brasil associar-se ao governo Orbán e a sua agenda internacional acaba por prejudicar a imagem do país perante parceiros tradicionais, como a União Europeia e os Estados Unidos.”
Visita inédita
Foi a primeira vez que um chefe de Estado do Brasil, a maior potência latino-americana, com 212 milhões de habitantes, visitou a Hungria, país com 9,8 milhões de habitantes. O Brasil é o principal parceiro comercial dos húngaros na América Latina.
Família tradicional
A defesa de visões sobre a família tradicional pode ter um impacto especial na Hungria, criticada pela União Europeia (UE) pela promulgação de leis que vetam a “promoção de uma identidade de gênero diferente do nascimento, mudança de sexo e homossexualidade” para os menores 18 anos.
Saiba mais
Guinada autoritária
» O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, é um dos principais expoentes da extrema-direita mundial e principal responsável pela guinada autoritária vivida pelo país europeu. Desde que voltou ao poder, em 2010, tem feito um esforço por laços além das fronteiras da União Europeia, onde é frequentemente acusado de realizar políticas que violam a democracia, operando um processo de “abertura para o leste”, olhando para China e Rússia.
» Orbán também era um aliado próximo do ex-primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que lhe deu “total apoio” nas eleições parlamentares que a Hungria realizará em 3 de abril.
» O presidente Jair Bolsonaro, que era um fervoroso admirador de Trump, se distanciou dos Estados Unidos desde que Joe Biden chegou à Casa Branca. O chefe do Planalto até ignorou a pressão de Washington para cancelar sua viagem à Rússia por causa das tensões na Ucrânia, dizendo que o fez em nome da “soberania” do Brasil.