O Estado de S. Paulo, n. 46644, 02/07/2021. Política, p. A4
Bastidores: Bolsonaro festeja, mas divisão do Centrão ainda é um risco
Vera Rosa
O presidente Jair Bolsonaro comemorou ontem a confusão instalada na CPI da Covid com o depoimento do vendedor de vacinas Luiz Paulo Dominghetti. Em conversas reservadas, Bolsonaro avaliou que o governo começa a “virar o jogo” para “desmascarar” o deputado Luiz Miranda (DEM-DF), delator de um esquema de corrupção no Ministério da Saúde. Até mesmo dirigentes do Centrão, porém, dizem ser muito cedo para cantar vitória. Motivo: há uma guerra de versões na Comissão Parlamentar de Inquérito sobre quem pagou e quem recebeu propina enquanto a pandemia crescia.
Embora a versão apresentada por Dominghetti tenha sido desmentida por Miranda e senadores suspeitem de “armação” do Planalto na CPI, Bolsonaro avalia que o governo saiu das cordas com o depoimento do policial militar.
O Palácio do Planalto montou uma estratégia para circunscrever a crise – a maior até agora no governo – a falcatruas cometidas por “pessoas” do Ministério da Saúde. Após uma avaliação interna de que o governo demorou a dar respostas e minimizou o poder de estrago de Miranda, a ordem foi demitir o então diretor de Logística, Roberto Dias.
Até agora, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), vem ganhando sobrevida, mas há no Planalto quem admita que sua situação ficará insustentável com o decorrer das investigações. Nos bastidores, ministros do “núcleo duro” do governo dizem que Bolsonaro espera o pedido de demissão de Barros. Para não fraturar ainda mais sua base de sustentação no Congresso, porém, aguarda que o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, avalize a operação para substituí-lo mais adiante.
Na prática, Bolsonaro está diante de uma difícil equação. Ex-ministro da Saúde, Barros se reaproximou dele por meio de Flávio Bolsonaro e de Ciro. O presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), quer tirar o correligionário do cargo, mas Bolsonaro teme a ruptura. Nessa briga, o Centrão não está coeso. E o governo depende do Centrão. Ao deixar o Ministério da Saúde, em março, Eduardo Pazuello disse a seu sucessor, Marcelo Queiroga, que havia sido “jurado de morte” por políticos insatisfeitos por falta de “pixulé”. Foi advertido no Planalto pelo “sincericídio”, mas, ao que tudo indica, o “pixulé”continua.