Título: Jóia social da América Latina
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 08/09/2005, Economia & Negócios, p. A19
A crise econômica que assolou a Argentina em 2001 não foi suficiente para tirar do país a liderança no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os países da América Latina. De acordo com o Relatório 2005 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), os argentinos registraram IDH de 0,863, garantindo a 34ª colocação geral no ranking, que tem a liderança da Noruega, com 0,963.
Enquanto isso, o Brasil manteve a 63ª posição na pesquisa de 2005, que leva em conta dados econômicos e sociais referentes a 2003. O país registrou IDH de 0,792, contra 0,790 em 2004.
O resultado mantém a Argentina entre os países com IDH considerado alto (acima de 0,80), enquanto o Brasil fica no grupo de IDH médio.
Entre os países latino-americanos, Chile (0,854, em 37º), Uruguai (0,840, em 46º), Costa Rica (0,838, em 47º), Cuba (0,817, em 52º), México (0,814, em 53º), Panamá (0,804, em 56º) e Trinidad e Tobago (0,801, em 57º) também possuem IDH alto. As demais nações da região têm desenvolvimento humano médio.
A liderança argentina na América Latina é explicada pelo professor Claudio Dedecca, do Instituto de Economia da Unicamp, como conseqüência histórica do maior desenvolvimento social do país vizinho. Segundo Dedecca, a Argentina sempre teve uma posição de destaque na região.
- O IDH é um índice que reflete principalmente as condições sociais dos países e a Argentina tem vantagens importantes em educação, habitação e saneamento. Em termos sociais, eles sempre tiveram destaque na América Latina e esta condição passada ainda pesa - explica.
Na avaliação do economista José Marcio Camargo, da consultoria Tendências e professor da PUC-Rio, o crescimento do IDH argentino entre as listas de 2004 e 2005 é reflexo da retomada da economia depois da crise de 2001. No período, o IDH do país pulou de 0,853 para 0,863.
- A Argentina já foi muito rica e ainda é. É o país com melhor nível de escolaridade e distribuição de renda da América do Sul. Mas são heranças do passado. A partir deste ano, contudo, o país deve crescer menos, já que a inflação fechará na casa dos dois dígitos - explica o economista.
Uma comparação entre os principais índices avaliados pelo Pnud dá uma idéia da diferença entre Brasil e Argentina. Enquanto os vizinhos tinham em 2003 expectativa de vida de 74,3 anos, índice de alfabetização de adultos de 97,2% e renda per capita de US$ 12.106, os brasileiros tinham esperança de viver 70,5 anos, taxa de alfabetizados de 88,4% e renda de US$ 7.790.
A projeção para os próximos anos é de que o Brasil não altere significativamente sua posição no ranking do Pnud, que engloba dados de 177 países. O crescimento econômico de 4,9% no ano passado e os esperados 3,5% para 2005 devem levar o país a subir na lista, mas a passos lentos.
Para Camargo, da Tendências, apesar do crescimento da economia brasileira no ano passado, ainda pesam a baixa escolaridade da população e má distribuição de renda - em 2003, o país foi o quinto mais desigual do mundo. A educação, na visão de Camargo, está sendo conduzida de forma equivocada pelo governo Lula, que investe no ensino superior e na formação de adultos e deixa de lado o ensino fundamental.
- Será um ganho lento. O Brasil hoje tem a possibilidade concreta de iniciar um crescimento sustentável. Deve crescer entre 3% e 4% nos próximos anos - prevê.
Mas este patamar de crescimento, na visão de Dedecca, da Unicamp, será insuficiente para alavancar grandes mudanças no IDH brasileiro. O economista ressalta que os maiores avanços no ranking, como os de alguns países asiáticos, foram precedidos por vários anos com taxas de expansão do PIB da ordem de 8%.
Dedecca ressalta ainda que o Brasil possui déficits sociais consideráveis em setores como saúde, educação e habitação, que demandam investimentos fortes.
- Temos necessidade de investimentos pesados na infra-estrutura básica e social. Nosso mercado de trabalho ainda é muito precário. Para mudar o quadro de forma significativa, deveríamos ter investimentos muito mais elevados que os atuais. Vamos ter um IDH mais alto no ano que vem, mas a mudança será insuficiente para grandes evoluções no ranking.
O Pnud considerou o Brasil um país profundamente concentrador de renda, com a oitava pior distribuição do mundo e os 10% mais ricos abocanhando 46,9% da renda nacional.
O índice de Gini do país, indicador usado para medir a desigualdade, é de 59,3 - quanto mais perto de 100, maior a concentração de renda. O resultado deixa o país à frente apenas de Namíbia (70,7), Lesoto (63,2), Botsuana (63,0), Serra Leoa (62,9), República Centro-Africana (61,3), Suazilândia (60,9) e Guatemala (59,9).
Rafael Rosas e Bruno Rosa, com agências