Título: Emprego é a primeira vítima
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 04/09/2005, Economia & Negócios, p. A18

Para reencontrar o nível de emprego e renda vistos no início dos anos 80, o Brasil deveria experimentar pelo menos 10 anos de crescimento expressivo e sustentado, algo, segundo estima o professor Claudio Dedecca, da Unicamp, entre 6% e 7% ao ano. - Não se trata simplesmente de incorporar os que chegam ao mercado de trabalho todos os anos, mas também agregar a população que hoje está desempregada, os que estão na informalidade e os que se mantêm com empregos mal remunerados. Portanto, não basta crescer um ou dois anos - explica.

No ano passado, afirma o economista, o crescimento de 4,9% no Produto Interno Bruto (PIB) registrado pelo país - apesar de robusto perto do observado nos anos recentes - foi incapaz de incorporar todo esse contingente de trabalhadores. Segundo cálculos de Dedecca sobre dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, enquanto foram criadas 1,5 milhão de vagas com carteira assinada, a população economicamente ativa (PEA) foi acrescida em cerca de 2 milhões de indivíduos.

- A expansão observada mal cobre o crescimento da PEA. Daí a sensação de que o mercado de trabalho não melhorou. A maioria das pessoas segue dependente de um emprego precário e quando se fala em crescimento é constante ouvir a pergunta: ''cresceu onde?'' - esclarece Dedecca.

A perspectiva para este ano não será das melhores neste campo. Apesar de uma taxa de expansão estimada em 3,5% em 2005, segundo previsão do governo - o que já é comemorado -, a geração de emprego ficará no meio do caminho.

Segundo o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Marcelo d'Ávila, o segundo semestre não terá o mesmo comportamento favorável no mercado de trabalho observado na primeira metade do ano, quando comparado a igual período do ano passado.

- O resultado dos últimos 12 meses encerrados em julho mostra uma queda substancial na geração de vagas com carteira, de um patamar de 647 mil postos de trabalho em junho para 445 mil. Não haverá uma expansão nos mesmos moldes do ano passado - prevê o economista, que pondera, no entanto, que a geração de vagas temporárias para o Natal aplacará parte da demanda por emprego.

Além da geração de vagas, há o desafio de garantir renda. Para melhorar o nível dos salários dos trabalhadores, segundo estima Dedecca, o ideal seria que a cada 1% de expansão no PIB, fossem criados 0,5% de novos postos de trabalho. No ano passado, enquanto o PIB cresceu perto de 5%, a geração de vagas aumentou 6%.

- Não é possível que a expansão do emprego seja maior do que a do PIB. O efeito acaba produzindo um encolhimento do rendimento. É o mesmo volume de recursos dividido por mais pessoas. Não há milagre na economia - diz.