O Estado de São Paulo, n. 46664, 22/07/2021. Política p.A14

 

Alvo de investigação trabalhou com Onyx, diz Alcolumbre


Ex-presidente do Senado coloca um dos homens de confiança de Bolsonaro como pessoa próxima a Roberto Dias

Vinícius Valfré 

O senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) sugeriu que foi o ministro Onyx Lorenzoni, hoje na Secretaria Geral da Presidência e ex-chefe da Casa Civil, quem exerceu influência sobre Roberto Ferreira Dias, ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, em atividades ligadas à pasta. Dias foi demitido após denúncias de corrupção na compra de vacinas.

De acordo com Alcolumbre, Dias afirmou que foi indicado ao cargo pelo ex-deputado Alberto Lupion (DEM-PR), que trabalhava com o Onyx. "Senti falta de vocês falarem que ele trabalhava com o ministro Onyx. E não sei por quê. Só colocaram na conta de um ex-deputado", disse ao Estadão.

A declaração liga um integrante do núcleo duro do presidente Jair Bolsonaro ao personagem que está no centro das principais denúncias de corrupção no Ministério da Saúde sob apuração da CPI da Covid.

Lupion trabalhou na gestão de Luiz Henrique Mandetta na Saúde. Antes, exerceu cargos de assessoria especial e de secretário na Casa Civil, quando a pasta era chefiada por Onyx Lorenzoni, de quem é bastante próximo. O ex-deputado Lupion tem se dedicado a cuidar de propriedades rurais no Paraná.

Apoiado pelo Centrão, Dias foi nomeado no início do governo Bolsonaro ainda com Mandetta no ministério. Ele foi uma indicação de Lupion com o aval de Ricardo Barros (Progressista-PP), líder do governo na Câmara.

Lupion e Dias trabalharam no governo de Cida Borghetti, no Paraná, mulher de Barros. Apesar da ligação com políticos do Paraná, militares e congressistas afirmam reservadamente que Alcolumbre era um dos maiores fiadores da permanência de Dias no cargo.

O ex-diretor sobreviveu a quatro ministros e só caiu após o surgimento das denúncias. O ex-ministro Eduardo Pazuello chegou a pedir a demissão de Roberto Dias em outubro passado, mas Alcolumbre interveio junto a Bolsonaro para que a demissão não se concretizasse, segundo a Rádio CBN.

Ex-presidente do Senado, Alcolumbre afirmou que não se movimentou para defender Dias. "Fiz um movimento para ele ajudar todos os governadores, pedindo para eles respiradores, álcool em gel, máscara. Fiz para todos, para os 81 (senadores) que me pediram para salvar a vida das pessoas", afirmou.

 

Caso Covaxin. Dias é alvo de denúncias relacionadas ao contrato da Covaxin e às negociações com a empresa Davati, que se apresentou como intermediária da vacina Astrazeneca. No Brasil, a farmacêutica só tem parceria com a Fiocruz.

Ao prestar depoimento à CPI da Covid, o ex-diretor acabou preso em flagrante porque, segundo os senadores, cometeu crime de perjúrio por ter mentido ao responder perguntas. Alcolumbre agiu pessoalmente para pedir que o presidente do colegiado, senador Omar Aziz (PSD-AM), recuasse.

O servidor do ministério Luis Ricardo Miranda e o irmão dele, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), afirmam que Dias foi um dos membros do ministério que exerceram pressão para que fosse agilizado o processo de importação da Covaxin.

Já o cabo da Polícia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominghetti, que se apresenta como representante da Davati, afirma que Dias pediu propina de US$ 1 sobre cada uma das 400 milhões de doses que a empresa queria vender ao ministério.

Procurado pela reportagem, Onyx não se manifestou sobre o assunto.