Título: Situação indigesta para Severino
Autor: Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Jornal do Brasil, 07/09/2005, País, p. A3
A descoberta de um documento, assinado pelo presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE) na época em que era primeiro-secretário da Casa, abriu um abismo sob os pés do comandante da Câmara, colocando-o à beira de um processo por quebra de decoro. No documento de 2002, Severino autoriza, de forma ilegal, a prorrogação, até 2005, do contrato de concessão do restaurante Fiorella, no 10º andar da Câmara. A informação, explosiva, fez com que a oposição batesse cabeça sem saber o rumo a tomar. Optou-se por esperar até terça para buscar o apoio de outros partidos ao movimento ''Fora Severino''.
O PPS queria uma representação imediata no Conselho de Ética. O PFL optava por ver Severino sangrar até a renúncia. O PSDB preferia esperar o encerramento das investigações antes de pedir a cassação. A divisão de opiniões levou o grupo a reunir-se no início da noite de ontem. Um novo encontro ficou marcado para a semana que vem, quando baterão o martelo sobre a data em que representarão contra Severino no Conselho de Ética.
- Na nossa visão, devemos solicitar à Polícia Federal os autos do inquérito e as provas obtidas durante as investigações. A partir daí, já temos condições de protocolar pedido de representação contra Severino no Conselho - defendeu o deputado Raul Jungman (PPS-PE).
A divulgação do documento de prorrogação do contrato foi antecipado ontem no site da revista Veja. Assinado em abril de 2002, Severino autoriza a concessão do restaurante Fiorella por mais três anos. De acordo com a revista, ele não poderia tomar esta decisão sozinho. Além disso, Severino negou, em nota oficial divulgada na segunda-feira, que tenha assinado qualquer documento prorrogando a concessão do restaurante da Câmara.
- Por si só, este documento já caracteriza falta de decoro - confirmou o líder da minoria, José Carlos Aleluia (PFL-BA).
O PFL, contudo, pisou no freio e quer ver Severino agonizando em praça pública. Por ter a vice-presidência da Casa, ocupada pelo deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL), o partido defende o afastamento de Severino, sem, no entanto, demonstrar qualquer pressa em representar contra ele no Conselho de Ética. Se o atual presidente da Casa renunciar ao mandato ou for cassado, Nonô teria cinco sessões para convocar uma nova eleição. Se ele pedir uma licença do cargo, a presidência poderia ficar nas mãos de um pefelista por até 120 dias.
A avaliação é de que Severino entrou numa roda-viva da qual não escapará ileso. O primeiro passo seria o afastamento da presidência, seguido pela renúncia ao cargo e a posterior renúncia ao mandato. Uma via-crúcis vivida pelo ex-presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA). Para os pefelistas, se o processo no Conselho de Ética for acelerado, Severino poderá continuar no cargo, fortalecido, manobrando para escapar da cassação.