O Globo, n. 32762, 19/04/2023. Mundo, p. 16

Panos quentes diplomáticos

Eliane Oliveira
Emanuelle Bordallo
Alice Cravo


Um dia depois de críticas contundentes dos Estados Unidos e da União Europeia (UE) às recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpando a Ucrânia, assim como a Rússia, pela guerra entre os dois países, e acusando Washington e os aliados europeus de Kiev de prolongarem o conflito ao fornecerem armas aos ucranianos, o governo brasileiro procurou botar ontem panos quentes na controvérsia diplomática. Em momentos separados, Lula e seu assessor especial para assuntos internacionais, Celso Amorim, ressaltaram que o Brasil condena a violação da integridade territorial da Ucrânia pela invasão russa. Amorim também disse que o país “não tem as mesmas posições da Rússia”.

G7 faz ameaça

Lula deu declarações ao receber o presidente da Romênia, Klaus Werner Iohannis, no Itamaraty. Em sua viagem à China na semana passada, o chefe de Estado brasileiro repetiu a tese da responsabilidade dupla de Kiev e Moscou pelo conflito no Leste Europeu. Também indicou que americanos e europeus são responsáveis pelo acirramento das hostilidades. Duas semanas atrás, Lula — que recebeu o chanceler russo, Sergei Lavrov, na segunda-feira — já argumentara que a Ucrânia deveria cogitar ceder a Crimeia, tomada pela Rússia em 2014, em um eventual acordo para pôr fim à guerra.

— Ao mesmo tempo em que meu governo condena a violação da integridade territorial da Ucrânia, defendemos uma negociação política para o conflito. Falei da nossa preocupação com os efeitos da guerra, que extrapolam o continente europeu. Reiterei minha preocupação com as consequências globais desse conflito em matéria de segurança alimentar e energética, especialmente nas regiões mais pobres do país —disse Lula.

O presidente voltou a falar sobre o desejo de criar um grupo com países neutros para discutir a paz e afirmou que ouviu “com muito interesse” as considerações de seu colega romeno sobre a guerra. A Romênia compartilha mais de 600 quilômetros de fronteira com a Ucrânia e abriga cerca de cem mil refugiados do país.

Os motivos para que Lula baixasse o tom de suas declarações podem ser vários. Um deles seria uma ameaça ontem do G-7 (grupo de sete das maiores economias do mundo e mais a UE) que não citou o Brasil, mas alertou para “custos severos” para “terceiros países” que oferecerem assistência à Rússia na invasão da Ucrânia. O documento foi assinado, em uma reunião de chanceleres do grupo em Tóquio, por EUA, Japão, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha e Itália. O presidente brasileiro foi convidado a participar de uma reunião do grupo no mês que vem.

— Os fatos e os movimentos de Lula nesta última semana ainda não estão claros. Em maio, Lula irá à reunião do G-7 e aí a conversa será mais franca. Creio que pesou o comunicado do grupo. A retirada do convite ao Brasil para participar do encontro seria terrível —afirma o professor de Relações Internacionais Roberto Goulart Menezes, da Universidade de Brasília.

Críticas ao dólar

Por sua vez, Amorim foi enfático em rebater a reação negativa das potências ocidentais às declarações de Lula. Em entrevista à Globonews, o assessor do presidente negou alinhamento a Moscou e disse que o Brasil condenou a invasão russa em assembleias na ONU e apenas não apoiou resoluções unilaterais que afetariam outros países. Ele rebateu as acusações do porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, de que Lula está “papagueando a propaganda da Rússia sem olhar para os fatos” quando afirma que EUA e Europa não estão interessados na paz e joga sobre os aliados de Kiev a responsabilidade por prolongar a guerra. As críticas foram reforçadas pelo portavoz de Assuntos Externos da UE, John Stano, que acusou a Rússia de ser “a única responsável pela guerra”.

— O Brasil não tem as mesmas posições da Rússia, o Brasil defende a integridade territorial da Ucrânia como defende de todas as nações —sublinhou Amorim.

O ex-chanceler disse que as críticas de Lula, na China, à predominância do dólar no sistema econômico internacional não foram ataques aos EUA. Segundo ele, o uso do dólar como moeda dominante nas transações internacionais prejudica, por exemplo, as trocas comerciais entre o Brasil e a Rússia.

De acordo com o assessor especial do Palácio do Planalto, embora as sanções ocidentais não alcancem as exportações de alimentos e fertilizantes russos, a exclusão da Rússia do sistema financeiro Swift, amplamente usado para transações internacionais entre diferentes países, prejudica o comércio com Moscou.

— A gente está falando sobre uma moeda única para fazer transações. A própria Rússia poderia comprar mais do Brasil, por causa disso [as sanções] as nossas exportações para a Rússia estão sendo prejudicadas — destacou Amorim.

— Não se trata de criticar os Estados Unidos (...), é sobre um sistema que permita um comércio livre de injunções políticas, muitas delas estranhas a nós.

Amorim também disse que Lula teve um longo telefonema com o presidente da Ucrânia,

Volodymyr Zelensky, e o mesmo diálogo ocorreu entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o seu homólogo ucraniano, Dmytro Kuleba.

Casa Branca condena

Ontem, no entanto, a Casa Branca voltou a criticar o posicionamento do governo brasileiro. Em entrevista coletiva, a porta-voz da Presidência americana, Karine Jean-Pierre, questionou a neutralidade do Brasil no conflito ao ser perguntada sobre as declarações de Lula.

— Ficamos impressionados com o tom da entrevista coletiva do Ministério das Relações Exteriores ontem [anteontem], que não era um tom de neutralidade, sugerindo que os Estados Unidos e a Europa não estão interessados na paz ou que compartilhamos a responsabilidade pela guerra. Acreditamos, e é verdade, que está completamente errado. Claro que queremos que essa guerra termine —afirmou Jean-Pierre, referindo-se à declaração de Lavrov e Vieira após encontro em Brasília, em que o chanceler russo disse que os dois países “têm visões similares sobre os acontecimentos que ocorrem no mundo:

— O que ouvimos, o tom, não foi neutro e não é verdade.  (Colaborou Renato Vasconcelos)