Título: A expressão física
Autor: MAURO SANTAYANA
Fonte: Jornal do Brasil, 09/09/2005, País, p. A2
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Roberto Busato, disse - em Santa Catarina - que Severino Cavalcanti "é a expressão física do mensalão". Se ele dissesse que o parlamentar pernambucano é a expressão política do escândalo em pauta, estaria sendo correto. Severino é o resultado da forma paulista de fazer política. Foram os maquiáveis do ABC e dos Jardins, ou seja, o pessoal do PT sindicalista e do PSDB que se imagina esperto, que decidiram, os primeiros com sua arrogância, e os segundos, com seu oportunismo, a vitória de Severino nas eleições para a Presidência da Câmara. Em tudo, Severino é produto de uma circunstância política provocada por dois erros: a imposição de um candidato da aristocracia intelectual do PT, Greenhalgh, contra as bases do próprio partido, e, em conseqüência, a manobra da oposição para derrubá-lo, quando o segundo turno colocou-o diante do pernambucano. Mas não foi o que disse Busato, que se referiu "à expressão física". Por que seria Severino essa "expressão física", e não, por exemplo, Roberto Jefferson, confesso destinatário de R$ 4 milhões ? Poderíamos até admitir - o que não está na lógica da linguagem - que Severino fosse apenas a "expressão", sem adjetivos, do escândalo, se ele realmente pudesse ser identificado como o articulador do processo de corrupção, ou dele o maior beneficiário. Mas esse não é o caso. Severino, se comprovada a propina recebida para favorecer um contrato de concessão, é corrupto como outro qualquer. Corrupto ou concussionário, o que dá no mesmo. A própria soma que eventualmente tenha recebido retira-lhe o protagonismo da falcatrua. Não pôde, ou não quis, "sujar-se gordo", como um personagem sugeriu a outro, no famoso conto de Machado de Assis. Outros, sim, sujaram-se tão gordurosamente que - tal como os porcos ensebados - conseguem escapar dos caçadores das CPIs. Severino Cavalcanti é sertanejo típico, em sua estatura, na conformação peculiar do crânio e da face, no jeito de falar. Não é figura apolínea, como costumam ser os nascidos e crescidos nos bairros nobres das cidades do sul, descendentes de imigração recente. Não é a sua aparência física, retornemos ao raciocínio, que nele identifica a culpa ou a inocência.
O descuido verbal do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil ocorre quando se volta a sugerir, de forma sub-reptícia e solerte, melhoramento ético dos brasileiros pela seleção genética, e quando movimentos separatistas do sul falam em nação européia, sabemos o que se encontrava por detrás desses projetos de aprimoramento "racial", defendidos nos anos 30, até mesmo por eminentes cientistas brasileiros. Chegam atrasados a esse lombrosionismo de segunda classe, uma vez que as teorias veterinárias, aplicadas à etnia, já foram totalmente desmontadas pela ciência. O preconceito contra a aparência física das pessoas é abominável como argumento político, e facilmente desmoralizado pela razão. Se há "expressão física" de inferioridade, moral ou intelectual, como Busato qualificaria o filósofo Jean Paul Sartre? Ou o mais lembrado dos advogados brasileiros, Ruy Barbosa? Tal era a aparência do mestre do Direito que, em debate no Senado, Ramiro Barcellos ousou insultá-lo, dizendo-o sifilítico, e recebendo a dura resposta de Ruy, de que o adjetivo era injusto, porque ele, Ruy, não lhe freqüentava a casa.
Busato parece disposto a disputar um cargo eletivo, o que é de seu direito, e trata de falar sobre tudo e sobre todos, a fim de ocupar espaço nos meios de comunicação, que sempre deram eco à OAB. Mas lhe convinha escolher com cuidado as palavras. Severino Cavalcanti pode vir a ser considerado corrupto, se as provas de seu deslize forem sólidas, ou é apenas um homem sem os recursos intelectuais do presidente da Ordem. É certo também que o presidente da Câmara é conservador reacionário, admirador da ditadura, que militou ativamente contra os defensores dos direitos humanos. Mas não é a expressão física de outra coisa, senão das duras condições sociais e geográficas de sua terra. Provavelmente, com a confissão de Sebastião Buani, de que pagou realmente a propina, ele perderá o mandato, por ser uma expressão moral - e não física - da corrupção, e se espera que outros culpados, de "boa aparência", também o percam.