Título: Severino mais perto do fim
Autor: Renata Moura
Fonte: Jornal do Brasil, 09/09/2005, País, p. A3
O empresário Sebastião Augusto Buani confirmou ontem que pagou mais de R$ 110 mil de propina para o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE). Dono da rede de restaurantes Fiorella, que presta serviços à Câmara e a pelo menos mais três órgãos públicos federais, Buani convocou jornalistas e detalhou todo o ''esquema montado por Severino'' à época em que o deputado do PP era primeiro-secretário e responsável pelos contratos da Casa. Buani negou a tentativa de extorquir Severino e disse que não se responsabiliza pelas declarações de seu ex-funcionário Izeilton Carvalho, que revelou a existência do esquema.
A entrevista do empresário tornou praticamente insustentável a permanência de Severino Cavalcanti na presidência da Câmara. Mas ele, de Nova York reagiu: ''É mentira, é mentira, é mentira''. Os repórteres insistiram para Severino comentar a entrevista de Buani, que momentos antes havia confirmado ter pago propina e ''mensalinho'' a Severino, que respondeu apenas: ''Estarei lá no Brasil na segunda-feira e responderei a todos''.
Na semana passada, Buani havia negado o pagamento da propina. Segundo o advogado do empresário, a negativa fez parte de uma ''estratégia de despistar, naquele momento, acusações que pesam sobre seu cliente''.
Acompanhado da mulher e dizendo estar profundamente arrependido, Buani tentou jogar a batata quente da corrupção no colo de Severino. Contou que o presidente da Câmara exigiu R$ 60 mil para prorrogar seu contrato por três anos. No entanto, depois de ''brigar e brigar'' conseguiu abaixar o valor da propina para R$ 40 mil. Segundo ele, o deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE) foi o padrinho das negociações, mas não chegou a participar diretamente delas.
- Ele marcou o encontro com Severino e elaborou o documento de prorrogação do contrato, mas não sei dizer se ele recebia o dinheiro. Eu pagava era para o primeiro-secretário (Severino) - declarou.
Gonzaga Patriota negou que tenha participado de negociação ou recebido propina do empresário. O deputado admitiu, porém, que, por ser freguês do restaurante, orientou Buani a procurar o então primeiro-secretário da Câmara com um ''ofício bem fundamentado'' para obter a renovação do contrato do restaurante com a Casa. Patriota disse não se lembrar se a renovação, definida no documento, era por cinco anos.
- Eu só ouvi falar desse ''mensalinho'' nos jornais. Não vi Severino e Buani tratarem de dinheiro.
Mesmo com um parecer jurídico da Câmara favorável à prorrogação do contrato, Buani disse que preferiu o caminho mais fácil e, por isso, se aproximou do ''homem dos contratos''. Ele contou que chegou a pagar por sete meses o ''mensalinho'' de R$ 10 mil como garantia de que não teria seus negócios excluídos da lista dos contratos da Câmara. Como prova, o empresário afirmou que deve apresentar nos próximos dias cópia de um cheque pessoal do Banco Bradesco, num valor ainda não especificado, que teria sido utilizado para pagamento da parcela de julho de 2003. Segundo ele, naquele mês, por conta do recesso parlamentar, o restaurante não conseguiu faturar os R$ 10 mil combinados.
- O homem (Severino) ficou bravo. Fiquei sem graça do arrocho e tive de emitir um cheque para completar o pagamento - afirmou Buani.
Ele negou que pagou contas de cartões de crédito do deputado. Disse ainda não se lembrar de endossar o cheque, o que poderá servir de prova para incriminar Severino.
- Logo saberemos quem descontou o cheque. Já pedi um levantamento do banco, antes mesmo que peçam a quebra de meu sigilo bancário.
Buani chorou ao se lembrar do dia em que decidiu parar de pagar o ''mensalinho'', no final de 2003, depois de uma conversa com a filha, contadora da empresa. Depois de tomar essa decisão, o empresário perdeu a concessão de dois importantes pontos: uma lanchonete e o restaurante mais movimentado da Câmara. Ao perder os pontos, em meados de 2004 entrou em outra concorrência para o restaurante do 10º andar do anexo 4.
Ansioso para não perder a licitação, Buani explicou que pediu uma cotação não adequada para o serviço. Entre aluguel, água e luz, o gasto mensal ficou em R 13,5 mil. Valor, segundo ele, ''impossível de ser pago''. Foi então que voltou a procurar a Mesa da Casa, que agora tem na presidência o deputado Severino.
- Se estive no gabinete do presidente da Câmara foi em busca disso. Buscava a aprovação de uma proposta de parcelamento, que tinha sido aprovado, e em seguida, indeferida. Estava nessas negociações quando o escândalo estourou.