Título: O PT e a metafísica dos costumes
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 09/09/2005, Outras Opiniões, p. A11

Acompanhando a crise política e moral interna ao PT são muitos que, perplexos, se perguntam: como se pôde chegar a isso, que a cúpula do partido traísse os princípios ético-políticos que o PT como um todo sempre pregou e que ao chegar ao governo central rotundamente negou? Não quero recorrer à sabedoria cristã que em seu realismo histórico sempre afirmou a profunda ambigüidade do ser humano, demens e sapiens, justo e pecador. Caso não se submeter a uma permanente autovigilância e controle social tende a cair e, de fato, cái na insapiência, na injustiça e na corrupção. Como o discurso teológico não é moeda corrente, prefiro remeter-me a Kant (+1804), um dos maiores pensadores da ética. Ele talvez nos ajude a entender a presente tragédia.

Na Crítica da razão prática (1788) e na Metafísica dos costumes (1797) propõe ''um princípio moral'' (Moralprinzip) e ''uma lei de costumes'' (Sittengesetz) que considero permanentemente válidos. Não prescreve nenhum conteúdo concreto que poderia ser relativizado pela evolução histórica ou pela diferença de culturas mas uma atitude básica a ser vivida sempre pelos seres humanos: ''aja de tal maneira que a máxima de tua vontade sempre e ao mesmo tempo possa valer como princípio de uma legislação universal''.

Em outras palavras: viva sua ética pessoal com tal excelência que ela possa valer sempre para todos os demais seres humanos. O sentido profundo da intuição kantiana é articular o pessoal com o universal. Concretamente, não há uma ética pessoal de um lado e uma ética social de outro. O que vale para uma deve valer para outra. Mais ainda, o princípio kantiano estabelece por onde deve começar a ética: pela própria pessoa. Sem ela a ética social será ilusória.

O que ocorreu com os dirigentes do PT? Concentraram-se na ética social descurando a ética pessoal. Sendo indulgentes com eles podemos supor o seguinte raciocínio que sabe a Maquiavel e ao marxismo de vulgata: se o fim for bom e se pudermos inaugurar um tipo de política que liberta os oprimidos podemos nos permitir deslizes éticos. Aqui reside o equívoco que abre caminho à corrupção. Ela difere da tradicional que se caracteriza pelo patrimonialismo, vale dizer, pelo enriquecimento do patrimônio pessoal. Neste caso, se deu um patrimonialismo partidário, beneficiar o partido para se perpetuar por muitos anos (20?) no poder a fim de realizar o projeto libertador.

O fim coletivo pode parecer bom. Mas o sujeito que opera a consecução deste fim bom não se faz bom. A ética social perverteu a ética pessoal. Esse comportamento, segundo Kant, não é universalizável. Conclusão a se tirar: não há ética social que dispense a ética pessoal. A revolução ética deve começar com a pessoa. Ela nunca é um indivíduo em seu esplêndido isolamento, mas como pessoa é um nó de relações voltadas para todos os lados, portanto, sempre social. Ficar só no pessoal sem ver o social ai presente, restringe as mudanças. Ficar só no social sem ver o pessoal ai escondido também aborta as transformações. Há que se articular sempre o pessoal com o social e ser éticos de ponta a ponta. Caso contrário se termina sempre em tragédias como essa da cúpula herodiana do PT. E aí tudo então se atrasa.