O Estado de S. Paulo, n. 46656, 14/07/2021. Internacional, p. A15
Imposições fazem franceses correrem para se vacinar
Mais de um milhão de franceses marcaram consultas para serem vacinados depois que o presidente Emmanuel Macron anunciou que será necessário apresentar um certificado de imunização ou um teste negativo de covid-19 para entrar em bares, restaurantes e cinemas, ou para viajar em trens e aviões.
O chefe do principal site de marcação de consultas disse ontem que o tráfego atingiu um pico após o pronunciamento de Macron na televisão, na noite de segunda-feira. "Registramos 20 mil consultas por minuto, um recorde absoluto desde o início da campanha", disse o diretor do site Doctolib, Stanislas Niox-chateau, à rede BFM.
Até o meio-dia de ontem, 1,3 milhão de pessoas reservaram horários para se vacinar, de acordo com a Rádio França Internacional. No país, é preciso marcar um horário pela internet ou por telefone para receber a imunização.
Macron anunciou que, a partir de agosto, quem quiser sair para comer, beber, pegar um trem de longa distância ou fazer compras em um shopping terá de apresentar comprovante de vacinação ou resultado negativo de teste de covid-19. Este comprovante também será necessário para assistir a festivais, entrar no teatro ou no cinema, a partir da próxima semana.
O presidente também anunciou a vacinação obrigatória, a partir de setembro, para os profissionais da saúde, trabalhadores em lares de idosos e outros que atuam com pessoas vulneráveis.
"Aqueles que quebrarem a regra não poderão trabalhar e não serão pagos", disse o ministro da Saúde, Olivier Véran. Macron explicou que o objetivo é reconhecer a civilidade dos vacinados e impor restrições aos não vacinados, e não a todos.
O número de infecções aumentou consideravelmente na França nas últimas semanas. O país atingiu mais de 4 mil casos nos últimos dias, por causa da variante Delta – cepa identificada inicialmente na Índia e mais infecciosa que as demais.
As medidas anunciadas pelo governo provocaram fortes críticas nas redes sociais. A palavra-chave "ditadura" ganhou destaque no Twitter, em meio a denúncias de que o governo impôs vacinação obrigatória de forma velada.
Alguns alegaram que essas medidas violam a liberdade pessoal de escolher se vacinar, ou não, enquanto os antivacinas formulavam teorias conspiratórias sobre as ligações entre o governo e as empresas farmacêuticas.
A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, criticou o governo por tornar a vacinação obrigatória para os profissionais da saúde.
"Nós os consideramos heróis, sempre presentes, apesar de seus baixos salários e difíceis condições de trabalho. Agora nós os fazemos se sentirem culpados e ameaçados, com brutalidade indecente", escreveu no Twitter.
O diretor do grupo de cinema CGR, Jocelyn Bouyssy, disse estar muito zangado com os anúncios, que serão difíceis de implementar e podem impedir que muitos franceses acessem as salas de cinema.
Os donos de restaurantes também receberam os anúncios com pessimismo. "Muitos dos meus clientes não estão vacinados. Se agora tiverem de fazer um teste e esperar 48 horas para tomar uma cerveja, eles não virão", disse à agência France Presse o dono de um estabelecimento parisiense, que pediu para não ser identificado.
Véran insistiu em que essas medidas são necessárias para evitar um novo confinamento.
Cerca de 35,5 milhões de pessoas – pouco mais da metade da população francesa – receberam pelo menos uma dose da vacina até agora, mas a taxa de imunização diminuiu nas últimas semanas. A França é um dos países mais céticos do mundo em relação às vacinas. No final de 2020, apenas 40% dos franceses estavam prontos para receber a injeção./ AFP e Reuters