Título: A honra e a audácia
Autor: Mauro Santayana
Fonte: Jornal do Brasil, 12/09/2005, País, p. A2

Uma coisa não tem faltado a Paulo Salim Maluf, nestes 40 anos de vida política: audácia. De certa forma, e para outros fins, dele é a divisa de Danton: para fazer uma revolução é necessário ter audácia, sempre audácia, e ainda mais audácia. Para fazer a carreira que Maluf fez, também. Maluf nasceu rico e se tornou ainda mais rico com os negócios da família. Mas não bastavamà sua ambição os lucros auferidos nas atividades empresariais. Resolveu entrar para a política na hora certa: quando os grandes empresários de São Paulo decidiram apoiar o movimento para a deposição de João Goulart. Era homem de 33 anos, pouco conhecido fora de seu meio, mas de grande simpatia pessoal, o que o levou à diretoria da Associação Comercial de São Paulo. Dali para uma carreira sob o amparo da ditadura militar, tudo lhe foi fácil. Segundo os boatos, foi perdendo em mesas de jogo que ganhou a presidência da Caixa Econômica e, em seguida, a Prefeitura de São Paulo. Enfim, a ser verdade a versão, Maluf foi competente investidor: muitas vezes, para ganhar, é preciso perder antes.

A ousadia de Maluf sempre esteve associada a raro senso de oportunidade. Quando sentiu que o regime entrara em fase de declínio, com a abertura política de Geisel e a escolha de Figueiredo para a sucessão presidencial, decidiu afrontar a candidatura de Laudo Natel, na convenção do partido oficial e, em seguida, o colégio eleitoral. Na época, ao comentar a vitória em convenção tumultuada, este colunista resumiu o fato: sabendo que a convenção seria um assalto, Maluf assaltou o assalto. Ousou mais.

O Ministério Público de São Paulo reuniu provas suficientes de peculato para obter a prisão preventiva de Paulo Maluf e de seu filho. Até agora, ele havia conseguido esgueirar-se da Justiça. Não parece que lhe seja fácil dela escapar neste momento. Mas há ainda longo caminho a percorrer para que Maluf vá realmente para a cadeia ¿ se chegar lá ¿ em um país em que as leis penais são feitas pelos ricos contra os pobres. Nos últimos anos, no entanto, os ricos começam a conhecer a prisão, o que revoga a constatação de Antonio Silvino, o célebre bandoleiro do Nordeste, de que nunca vira na cadeia ninguém com mais de 50 mil réis no bolso.

Os últimos meses têm sido paradoxais. Ao mesmo tempo em que se descobrem vastos esquemas de corrupção política, a Polícia Federal e o Ministério Público atuam com singular competência. A alta burguesia descobre, de repente, que não se encontra mais inalcançável. A prisão de Maluf é o segundo susto dos grandes ricos do país, depois da ação policial na loja Daslu. As imagens de Paulo Maluf se entregando à prisão e a de seu filho, algemado, mostram que alguma coisa está realmente mudando neste país.

É provável que as brechas da lei favoreçam os advogados de Maluf e de seu filho, e que ambos sejam postos em liberdade, talvez ainda hoje. Mas as horas em que estiveram em uma cela de 12 metros quadrados, dormindo, pela primeira vez na vida, em despojados leitos de cimento, e sem os luxuosos banheiros que sempre usaram, irão levá-los a algum exame de consciência. Eles descobriram que são feitos da mesma carne e sujeitos às mesmas vicissitudes dos outros seres humanos, ainda que durante algumas horas. O que conversaram, pai e filho, nestas noites passadas? Discutiram as questões éticas de seu comportamento? Ou ocuparam o tempo na preparação de sua defesa?

Por mais culpa tenha Maluf ¿ e essa culpa será, naturalmente, aferida nas investigações ¿, ele está vivendo grande drama pessoal. Nem sempre somos responsáveis pelo que fazem os nossos filhos, mas, normalmente, eles buscam seguir na vida os nossos passos, o que parece ter sido o caso. Caio Mário, o grande romano de origem plebéia, deunos forte lição, no discurso aos soldados na guerra contra Jugurta: ¿Ninguém coloca um filho nomundo com a presunção de que ele venha a ser eterno, mas com a esperança de que venha a ser honrado.¿ Mas nem todos sabemos o que seja honra. Muitos pensam que possam comprá-la no mercado, como se adquirem blue chips.