Título: Epidemia de dengue ameaça o Rio
Autor: Duilo Victor
Fonte: Jornal do Brasil, 12/09/2005, Rio, p. A13

A concentração de larvas de aedes aegypti nas residências cariocas já preocupa autoridades da Secretaria Municipal de Saúde e especialistas, mesmo a três meses do verão, ambiente ideal para a proliferação do mosquito. No Méier, 7,15% das residências checadas pelos agentes de saúde entre janeiro e junho deste ano estão com larvas do mosquito, quando o nível tolerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 1%. Epidemiologistas alertam que para que aumentem os riscos de um novo surto de dengue, como o que deixou pelo menos 140 mil cariocas doentes há três anos, basta que um novo tipo de vírus, mais provavelmente o tipo 4, chegue à cidade. Caso este subtipo da dengue chegue ao Rio, um dos fatores que causariam uma epidemia seria o fato de a população do Rio estar sem imunidade ao vírus tipo 4, que nunca foi encontrado na cidade. Como não têm como impedir que o vírus chegue ao município, resta às autoridades controlar a alta concentração de focos do mosquito.

- O Rio tem todos os anos um nível de infestação alto, mas a preocupação é grande. Nunca há como afastar por completo o risco de uma epidemia, apesar de agora estar tudo sob controle. Se constatarmos em nosso monitoramento que o vírus tipo 4 chegou à cidade, dependeremos de uma mobilização muito grande para controlar a situação até o verão - afirma Meri Baran, superintendente de Vigilância em Saúde do município.

Ela explica também que existem três unidades sentinelas na rede pública do Rio que colhem amostras de larvas, mosquitos adultos e sangue de pessoas infectadas para monitorar os tipos de vírus da dengue que circulam na cidade.

- Mesmo sem a chegada do vírus tipo 4, não estamos livres de uma epidemia no verão, mas acredito que sem a mesma intensidade da última, em 2002. Com esses números preocupantes de infestação, há chance de surtos de dengue tipo 2, principalmente para quem nasceu depois da epidemia dessa variação do vírus, em 1991 - responde Roberto Medronho, professor de epidemiologia da UFRJ.

Para o entomologista (profissional especializado no estudo de insetos) Anthony Érico Guimarães, da Fundação Oswaldo Cruz, um número de casos como o notificado há três anos é inevitável se o vírus tipo 4 for encontrado no Rio. Apesar de considerar subestimado o nível tolerado pela OMS, ele explica que com a quantidade de residências onde já foram encontrados focos do mosquito este ano só não houve uma nova epidemia porque o vírus mais presente na cidade é do tipo 3, o mesmo que casou a epidemia de 2002. Segundo ele, uma pessoa só desenvolve os sintomas da dengue uma vez para cada tipo de vírus.

- Existem três fatores para se criar uma epidemia com o vírus do tipo 4: grande concentração de mosquitos, população sem imunidade à variação da doença e a presença do vírus. Dois dos fatores já existem - alerta.

De acordo com Guimarães, o tipo 4 está presente em países vizinhos como Venezuela e Colômbia, além de alguns países do Caribe.

- É possível que o tipo 4 já esteja no Rio porque os sintomas da doença, como febre alta, vômitos e dores de cabeça, só se manifestam entre 30% e 40% dos que tiveram contato com o vírus - estima o especialista.

Além do Méier, que foi o bairro com maior número de focos do mosquito transmissor, Madureira teve índice de infestação de 5,7%, e Tijuca, Andaraí, Vila Isabel, Grajaú e Alto da Boa Vista ficaram com 3,06%. Na Zona Sul, o índice entre janeiro e junho foi de 2,18%. A situação mais confortável é a do bairro de Campo Grande, com 1,04% de infestação.

Uma pessoa infectada com dengue, mesmo sem desenvolver os sintomas da doença, pode espalhar o vírus se picada por um aedes aegypti até seis dias depois do contato. Entre janeiro e agosto deste ano, foram notificados 326 casos.

- O inverno atípico, com temperaturas altas e a chuva dos últimos dias, tem favorecido a proliferação do mosquito. Constatamos também que como não estamos em época epidêmica, alguns moradores estão relaxando na prevenção aos criadouros - responde o coordenador de Controle de Vetores da Secretaria Municipal de Saúde, Mauro Blanco.

No caso do Méier, ele justifica que o alto índice de infestação no bairro ocorre devido ao número de casas que os agentes de saúde não conseguem entrar, cerca de 44%. Com prioridade em combater os focos que concentram grande número de larvas, como caixas d'água e fossos de elevador, 2.200 agentes de combate à dengue estão nas ruas. Mas um possível reforço por conta do alto índice de infestação, mesmo antes do verão, ainda não está garantido, de acordo com Blanco.

- O poder público cobra muito da população, mas não põe nas ruas agentes suficientes. Imagine uma epidemia de dengue com a crise por que passam os hospitais - alerta o presidente da Associação de Moradores do Méier, Jorge Barata.