O Estado de São Paulo, n. 46742, 08/10/2021. Política p.A9
'Meus equipamentos seriam desligados'
Advogado relata à CPI que recebeu da Prevent Senior 'kit covid' e que família ameaçou ir à Justiça para mantê-lo em unidade intensiva
Daniel Weterman / BRASÍLIA
Em um depoimento emocionado na CPI da Covid, o advogado Tadeu Frederico de Andrade, de 65 anos, relatou ontem a senadores seu drama ao ser internado em um hospital da Prevent Senior após pegar covid-19, no ano passado. Ele disse que médicos da operadora tentaram retirá-lo da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para "morrer em poucos dias", após usarem o chamado "kit covid", composto por medicamentos sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus. Ao contar a sua história, ele chorou.
A CPI da Covid investiga a Prevent Senior por supostamente fazer "experimentos" em pacientes para testar substâncias que não têm indicação para casos de covid-19, como a hidroxicloroquina, em alinhamento com o que defende o presidente Jair Bolsonaro.
O advogado afirmou que, por orientação de médicos da Prevent, recebeu o "kit covid" ainda em casa, logo após ligar para o plano e relatar os primeiros sintomas da doença. Depois de cinco dias de tratamento, teve uma piora no quadro, quando foi internado. Ele disse que permaneceu durante 30 dias na UTI e afirmou ter sido vítima de uma tentativa de retirada dos cuidados intensivos sem o consentimento da família.
Por telefone, de acordo com Andrade, uma médica da Prevent informou à filha do paciente que ele seria retirado da UTI e iria para um leito paliativo, com aplicação de morfina e determinação para não reanimação em caso de parada cardíaca. A decisão foi repetida em uma reunião presencial usando o prontuário de uma outra paciente, de acordo com Andrade. "Seria ministrada uma bomba de morfina e todos os meus equipamentos de sobrevivência, na UTI, seriam desligados."
A família foi contra a decisão dos médicos e ameaçou recorrer à Justiça. "Minha família não concorda nessa reunião com o início dos cuidados paliativos, se insurge, ameaça ir à Justiça buscar uma liminar para impedir que eu saia da UTI e ameaça procurar a mídia. Nesse momento, a Prevent recua e cancela o início do tratamento paliativo, ou seja, eu, em poucos dias, estaria vindo a óbito e hoje estou aqui", relatou o advogado, que chorou ao mencionar o episódio aos senadores.
Médico. Também na sessão de ontem da CPI, o médico Walter Correa de Souza Neto falou em "fraudes", incentivo ao chamado "tratamento precoce" e falta de autonomia dos profissionais de saúde na Prevent. Ele foi um dos profissionais que entregaram um dossiê à CPI com acusações à rede. "A gente vivia num ambiente em que todas as pessoas ficavam muito receosas de contrariar qualquer orientação", afirmou.
O médico declarou ter sido pressionado a prescrever hidroxicloroquina. "Eu não fazia isso fora da Prevent, mas, na Prevent, eu chegava a fazer e avisava sempre os pacientes de que não havia evidência. Essa coisa que foi citada de que os pacientes 'ninguém vai a óbito, ninguém entuba', isso já era muito claro, a gente sabia que era fraude."
Operadora. Em nota, a Prevent Senior negou que tenha iniciado tratamento paliativo em Andrade e afirmou que a medida foi uma sugestão da médica da empresa, e não uma determinação. A empresa afirmou que o Souza Neto mentiu no depoimento e tentou fechar "acordos milionários" para que a advogada Bruna Morato, que também foi ouvida na comissão, não levasse as acusações à CPI.
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DAVI MEDEIROS
• A CPI da Covid aprovou ontem requerimento para convocar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a depor no Senado. Esta será a terceira oitiva do médico na comissão. O autor do pedido foi o senador Alessandro Vieira (Cidadana-SE). O depoimento foi agendado para o dia 18.
Segundo o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o ministro não respondeu a questionamentos sobre os próximos passos da gestão da pandemia. O relator Renan Calheiros (MDB-AL) disse que a convocação não vai atrasar o relatório final.
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VINÍCIUS VALFRÉ, JULIA AFFONSO E LORENNA RODRIGUES
Pressionado por bolsonaristas, o órgão do Ministério da Saúde responsável pela análise técnica de novos medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) adiou a decisão, prevista para ontem, que poderia barrar de vez o uso da hidroxicloroquina para tratamento da covid-19. A droga comprovadamente não funciona contra a doença, mas é promovida pelo presidente Jair Bolsonaro e seus aliados.
A discussão foi retirada da pauta da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) a pedido do coordenador do grupo, o médico Carlos Carvalho, da USP, escolhido pelo ministro Marcelo Queiroga. Ao Estadão, Carvalho disse que a decisão não foi influenciada por questões políticas. Ele afirmou que pretende levar para discussão do grupo de especialistas que elaboraram o protocolo um estudo publicado no fim de setembro, no The New English Medical Journal, sobre o remédio Regen-Cov.
A decisão da Conitec, que tem caráter consultivo, era esperada com preocupação pelo Palácio do Planalto por causa de consequências políticas e jurídicas. A recomendação indiscriminada da droga que não funciona, em detrimento de medidas como incentivo à vacinação e ao distanciamento social, é uma das frentes atacadas pela CPI da Covid no Senado.
O parecer que seria levado a votação, ao qual o Estadão teve acesso, diz que, em tempos de pandemia, os recursos públicos devem ser empregados em medidas eficazes. O documento deixa claro que há evidências de que azitromicina e hidroxicloroquina não funcionam no tratamento da doença e não devem ser usadas. Já para drogas como ivermectina e colchicina há ausência de evidências de que funcionam no tratamento.
As diretrizes foram elaboradas por cerca de 20 especialistas, de diferentes sociedades médicas.
O Ministério da Saúde afirmou, em nota, que o tema foi retirado de pauta em razão da "publicação de novas evidências científicas dos medicamentos em análise". Ainda segundo a pasta, o documento "será aprimorado e vai ser pautado assim que finalizado".