Título: Presidente do Irã critica anfitrião
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Fonte: Jornal do Brasil, 15/09/2005, Internacional, p. A12

No primeiro dia da Assembléia Geral da ONU, em Nova York, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, condenou a política unilateral e militar dos Estados Unidos, além de criticar o privilégio do país na organização. O líder islâmico, acusado ter um passado terrorista, discursou enquanto o Conselho de Segurança aprovava duas resoluções antiterror. Eleito presidente em junho, Ahmadinejad não mediu as palavras para criticar o país sede das Nações Unidas. Os EUA já ameaçaram levar o programa nuclear do Irã ao Conselho de Segurança, órgão que poderia aprovar além de sanções econômicas, uma intervenção militar em Teerã. Washington alega que as ambições iranianas têm fins militares.

¿ Poder ou riqueza não deveriam conceder maiores direitos a nenhum membro da ONU. O país anfitrião não deveria gozar de vantagens em relação aos outros membros ¿ criticou o líder islâmico, que quase teve o visto americano negado para participar da Cúpula em Nova York. O ultraconservador já foi acusado de envolvimento no seqüestro da embaixada americana no Irã, em 1979.

Ahmadinejad não fez novas propostas a respeito de seu programa nuclear e do mal-estar criado com os EUA e a União Européia. Para o muçulmano, ¿a depravação espiritual da humanidade¿ é o maior desafio trazido porque ¿a ordem prevalecente¿ se distanciou ¿da moralidade e da unidade do monoteísmo¿.

Enquanto discursava, um grupo de iranianos exilados protestava em frente à ONU, classificando-o de terrorista:

¿ Ahmadinejad não é representante dos iranianos. É um terrorista ¿ disse Bahman Badiee, da Sociedade Iraniana da Flórida.

O terrorismo foi tema de uma das resoluções aprovadas pelo Conselho de Segurança com unanimidade pelos 15 membros. A primeira pede aos governos que ajam de forma a proibir por lei o incitamento a atos terroristas, além de uma maior colaboração com a extradição de suspeitos. A proposta foi feita pelo Reino Unido e é inspirada nas medidas antiterroristas aprovadas pelo primeiro-ministro Tony Blair semanas após os atentados terroristas de 7 de julho, que deixaram 52 mortos, além dos quatro terroristas ¿ todos muçulmanos. A segunda resolução estabelece mecanismos para reforçar o papel da ONU na prevenção de conflitos, principalmente na África.

O Conselho de Segurança solicitou à comissão das Nações Unidas contra o terrorismo que ajude os Estados membros a dotar-se de instrumentos jurídicos apropriados e envie relatório em 12 meses sobre a aplicação da resolução.

¿ Temos a obrigação solene de atacar as redes de terrorismo e promover a ideologia de liberdade e tolerância, que irá refutar a negra visão dos terroristas ¿ declarou o presidente americano, George Bush.

Para Blair, ¿não se deve subestimar a ameaça do terrorismo, que acaba com vidas não apenas no Iraque, como também em países desenvolvidos¿.

Ainda sem uma definição de `terrorismo¿, as medidas adotadas pela organização foram criticadas por grupos de defesa dos direitos humanos. O Human Rights Watch teme que a resolução seja utilizada como ferramenta de governos autoritários:

¿ A resolução pode ser utilizada por governos abusivos para justificar ataques contra oponentes políticos pacíficos, para impor censura e fechar locais como mesquitas, igrejas e escolas ¿ afirmou o diretor da ONG, Kenneth Roth.

Se por um lado já há consenso em questões relativas ao combate ao terrorismo, pouco se avançou no debate das Metas de Desenvolvimento do Milênio, que pretendem reduzir a pobreza mundial pela metade até 2015.

¿ O que o mundo precisa agora é de lideranças que garantam a implementação total e sem atraso das decisões desta cúpula sobre o desenvolvimento ¿ disse o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, no discurso de abertura da Assembléia Geral.

Os EUA chegaram a defender que as Metas fossem retiradas do documento a ser assinado amanhã, ao final da Cúpula. Bush, no entanto, voltou atrás e prometeu ontem eliminar todos os subsídios agrícolas se outros países desenvolvidos fizerem o mesmo. O presidente afirmou que a União Européia deveria dar o primeiro passo.

O presidente da Comissão européia, José Durão Barroso, por sua vez, ressaltou que o comércio internacional é um poderoso instrumento de ajuda ao desenvolvimento.

Para Jean Ping, que está deixando a presidência da Assembléia Geral, não houve vontade política entre os países ricos para ajudar a África como aconteceu no Plano Marshall, que reconstruiu a Europa depois da II Guerra Mundial.

Pelo documento final, os líderes mundiais não se comprometem a gastar 0,7% do Produto Interno Bruto com a ajuda às nações pobres, como proposto na Cúpula do Milênio, em 2000.