O Globo, n. 32734, 22/03/2023. Opinião, p. 2

Fantasma dos cem dias assombra Lula

Vera Magalhães


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece assombrado pela contagem regressiva para que seu terceiro governo alcance a simbólica marca dos cem dias. Trata-se, é claro, de uma efeméride boba. Pouco mais de três meses não são suficientes para ditar o sucesso ou fracasso de uma gestão de quatro anos, mas os próprios governantes alimentam essa cobrança ao preparar planos e balanços como se vivessem sob o rigor das 12 badaladas do conto da Cinderela e fossem virar abóbora depois de 10 de abril.

Com Lula não é diferente. Pelo contrário. A conjunção de economia que anda de lado, país dividido politicamente, popularidade que não chega nem perto da que ele já ostentou nos tempos áureos pré-2010 e governabilidade ainda não garantida está pressionando o chefe do Executivo para além do padrão quando se aproxima essa primeira linha divisória dos mandatos.

O adiamento da apresentação do tal marco fiscal tem a ver com esse fantasma. Lula não quer errar. Por isso submeteu a proposta de Fernando Haddad a um longo e confuso test drive. Não só não a chancelou de primeira, como recomendou ao ministro rodar mais um pouco — apresentá-la ao Congresso, à Junta Orçamentária, quiçá à gigantesca comitiva que vai à China — para amaciá-la antes que se transforme em Projeto de Lei Complementar.

Até lá, o presidente parece esperar que Haddad seja convencido pelas visões de que a economia brasileira precisa de estímulos, de que as taxas de juros nos condenam à morte, de que a política monetária é pornográfica, essas hipérboles ditas com ainda mais ênfase nesta semana em que o Comitê de Política Monetária do Banco Central definirá o futuro da taxa Selic. Como se os diretores do BC se impressionassem com adjetivos.

Mas não é só na intrincada e urgente definição dos rumos da política fiscal que o espectro dos cem dias tira o sono do presidente. Lula foi eleito prometendo a volta a um passado idílico que, na sua fantasia, corresponde a seus dois mandatos anteriores. As pessoas comiam picanha, a austeridade fiscal saía na urina, estádios de futebol brotavam do chão como mato, todos eram felizes.

Mas essa fábula não descreve a realidade em toda a sua complexidade, o mundo mudou muitas vezes desde então, e o presidente — que enfrentou um calvário pessoal pesadíssimo nesse interregno entre a descida e a nova subida da rampa, de que dá mostras de não ter se dissociado totalmente, como na entrevista de ontem — não se deu conta de quanto.

Retomar grandes obras de infraestrutura não esbarra só nas restrições orçamentárias, mas em questões como a mudança necessária de matriz energética e a nova centralidade da questão ambiental nas decisões de investimento, pautas com que Lula se comprometeu retoricamente na campanha, mas que são estranhas a seu repertório de como se governa e de como o crescimento é induzido pelo Estado.

Em seu terceiro governo, certamente Lula teria mais dificuldade de arbitrar em favor da construção das hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, cuja pertinência continua defendendo, mas que são cada vez mais contestadas pelo impacto nas populações afetadas.

Esses novos protagonistas foram levados por ele para dentro do governo, assim como os expoentes da tal “frente ampla” com que se comprometeu para obter uma dificílima vitória contra Jair Bolsonaro. Serão forças a atuar contra a ideia de que Lula 3 será uma repetição malpassada e com gordura de Lulas 1 e 2.