O Estado de S. Paulo, n. 46720, 16/09/2021. Política, p. A8
Nove partidos vão financiar atos contra Bolsonaro
Bruno Ribeiro
Nove partidos de oposição vão financiar a criação de publicações e materiais para difundir a campanha pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro, convocando a população para protestos de rua no dia 2 de outubro e 15 de novembro. As siglas decidiram “fechar questão” e atuar como um grupo na defesa do impeachment.
As legendas, por meio de suas fundações, devem investir em ações de propaganda e marketing que passa por apresentar a bandeira do Brasil e as cores verde e amarelo para identificar o movimento. A decisão sobre essa forma de abordagem foi tomada em conjunto pelos presidentes do PDT (Carlos Lupi), Solidariedade (Paulinho da Força), PSB (Carlos Siqueira), PT (Gleisi Hoffmann), PV (José Luiz Penna), PSOL (Juliano Medeiros), PCDOB (Luciana Santos), Rede (Wesley Diógenes) e Cidadania (Roberto Freire). O grupo participou de uma reunião na Câmara dos Deputados no fim da manhã de ontem, que teve ainda a presença das lideranças das bancadas de oposição, Alessandro Molon, e da minoria, Marcelo Freixo, ambos do PSB do Rio.
À tarde, o grupo se reuniu com representantes de outras seis outras legendas e participou de um ato organizado pelo movimento Direitos Já pelo Dia Internacional da Democracia em que houve novas manifestações pelo impeachment.
A proposta do movimento é organizar um grande ato contra o presidente na Avenida Paulista às 15 horas do dia 2 de outubro, com protestos nos Estados na parte da manhã. Os dirigentes partidários pretendem convocar governadores e prefeitos de suas legendas para que estejam nas ruas. Os líderes concordaram em buscar uma aproximação formal com as organizações de direita que promoveram os protestos do último domingo, o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua, além dos partidos próximos desses grupos, como o Novo.
Apesar de esvaziada, a manifestação de domingo conseguiu reunir cinco pré-candidatos à Presidência: o ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes (PDT), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB); o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM); o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e a senadora Simone Tebet (MDB-MS).
“Estamos conversando com vários partidos mais de centro, PSB, o próprio MDB, o DEM. Estamos conversando também com PSDB. Cada um tem seu tempo, seu processo de consulta, mas estamos conversando” disse o presidente do PDT, Carlos Lupi, após a reunião.
Os documentos criados pelas fundações deverão “esclarecer a sociedade o porquê desses atos, a carestia, tudo isso que está acontecendo”, segundo Lupi. “(Decidimos) organizar um time para cuidar de publicidade disso, de propaganda disso, de marca, para colocar a bandeira do Brasil no seu lugar, o verde e amarelo, que a gente acha que está sendo aproveitado indevidamente”, afirmou.
O Novo, entretanto, já sinaliza que não ingressará no movimento. “Fomos convidados, mas entendemos que se trata de um movimento que congrega basicamente partidos de esquerda, onde o Novo estaria totalmente deslocado e teria pouco a contribuir”, disse ao Estadão o presidente do partido, Eduardo Ribeiro.
Formação. As fundações partidárias são instituições que, segundo a legislação eleitoral, todos os partidos devem manter para promover ações de fomento à formação política. São financiadas por recursos públicos do Fundo Partidário. Por lei, ao menos 20% dos recursos do fundo devem ser usados para a manutenção das atividades das fundações, mas muitos partidos destinam mais que isso. No ano passado, as fundações receberam cerca de R$ 188 milhões.
Especialistas consultados pelo Estadão criticam a falta de transparência na execução dessas despesas, mas não veem irregularidade no uso dos recursos para promoção de atividade de cunho político. “Não vejo impedimento algum para a utilização de recursos do fundo partidário em campanha pelo impeachment, uma vez que a lei estabelece que o fundo pode bancar propagandas com finalidade política, o que é o caso do impedimento do presidente”, disse Renato Galuppo, advogado especialista em direito eleitoral.
Diálogo
“Estamos conversando com vários partidos mais de centro, PSB, MDB, e DEM, e também com PSDB. Cada um tem seu tempo.”
Carlos Lupi
Presidente do PDT