Título: Temor de fraude na eleição
Autor: Paulo Celso Pereira e Sergio Duran
Fonte: Jornal do Brasil, 18/09/2005, País, p. A3

Após a queda das principais cabeças de comando do PT, mergulhado em denúncias de caixa 2 e corrupção, candidatos das chapas mais à esquerda levantam suspeitas sobre a lisura do processo eleitoral no partido. Transporte de eleitores e pagamento de taxas para filiados se tornarem aptos a votar são os principais acusações de pelo menos quatro dos sete candidatos à presidência. Além das possíveis irregularidades durante o pleito, sobram críticas às filiações em massa dos últimos anos. Como prevenção, estão previstos esquemas reforçados para fiscalização das urnas e para a contagem dos votos.

Para o candidato Plínio de Arruda Sampaio, a preocupação com as irregularidades no processo eleitoral é ''muito forte'', porque, segundo ele, a prática já ocorreu.

- Nas últimas eleições diretas, em 2001, houve transporte de eleitores pelo Campo Majoritário. Pessoas próximas a mim citaram o aliciamento de militantes por meio de transporte irregular até mesmo na periferia de São Paulo - afirmou.

A filiação ''massiva'' que aconteceu nos últimos anos - estima-se que pelo menos 300 mil pessoas tenham entrado no partido entre 2002 e 2004 - é criticada pelos candidatos de esquerda. Para Plínio, a prática está relacionada à opção de vencer as eleições a qualquer custo, tanto numa eleição presidencial quanto numa disputa interna.

Raul Pont reforça a crítica à filiação em massa permitida pela última gestão. Ele considera os novos militantes ''passíveis de cabresto''. De acordo com o candidato, a flexibilização das regras para entrar no partido pode ter contribuído para gerar a atual crise ética.

- Antes de 2001, o filiado novo era apresentado por um antigo e devia participar ativamente de reuniões e debates. Hoje, para ser filiado é só pagar R$ 5 de anuidade. Temos que combater essa cultura passada pelo Campo Majoritário e discutir uma nova relação com os militantes - avaliou Pont.

A eleição direta, teoricamente mais democrática, possibilitou, no entanto, que qualquer militante, mesmo afastado das atividades partidárias, participe da escolha da nova direção.

A perda do caráter ideológico das eleições foi acentuada depois que a coordenação do partido autorizou o voto para quem pagou apenas a anuidade de 2005. O coordenador geral da campanha da deputada Maria do Rosário, Romênio Pereira, acredita que era melhor ter anistiado os filiados em suas anuidades para deixar o processo mais transparente, ''o que impediria que candidatos paguem para alguém votar''. Segundo ele, a chapa de Maria mobilizou mais de 800 pessoas para fiscalizar a votação em 250 cidades do país onde o Campo tem presença mais forte.

Ao contrário dos outros candidatos de oposição, Valter Pomar mostrou-se cauteloso quanto à possibilidade de fraudes:

- Acredito que podem acontecer casos isolados. Vamos estar vigilantes. Mas não quero lançar suspeitas generalizadas - minimizou.

Apesar das denúncias sobre as eleições de 2001, o coordenador do Processo de Eleições Diretas e secretário de Mobilização do PT, Francisco Campos, garantiu que na história do partido não há nenhum registro de fraude.

Cada chapa tem o direito de escolher até um fiscal por urna. O problema, segundo os candidatos, são os pequenos municípios. No Rio, a base de sustentação da candidatura de Plínio está pedindo para os militantes ficarem duas horas a mais no seu local de votação fazendo o que chama de ''fiscalização voluntária''.

Não bastasse tanta desconfiança, as candidaturas mais pobres ainda enfrentam a falta de verbas para viajar pelo país. O que, segundo eles, gera um desequilíbrio entre as campanhas.

O novo tesoureiro do PT, deputado José Pimentel (CE), vetou a utilização do Fundo Nacional de Campanha, sob a alegação de ter recebido o caixa do partido com um rombo de R$ 38 milhões. Para o candidato Markus Sokol, a falta de dinheiro prejudicou as campanhas menores ''em detrimento das que aparecem na mídia''.

- As práticas antiéticas reveladas pela crise no interior do partido nos alertou para o fato de que as bruxas estão soltas. Temos que ficar de olho nessas eleições - disse Sokol, com a promessa de colocar equipes nas ruas para fiscalizar.