Título: Qual PT?
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Fonte: Jornal do Brasil, 18/09/2005, País, p. A10
Mais de 825 mil filiados, presentes em cerca de 4.600 cidades, ajudarão neste domingo a redefinir os rumos do Partido dos Trabalhadores. A disputa interna revela um caráter essencialmente plebiscitário. Dos sete nomes, seis são de oposição: Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê, Maria do Rosário, Markus Sokol, Plínio de Arruda Sampaio, Raul Pont e Valter Pomar. Todos eles buscam superar o ex-ministro Ricardo Berzoini, candidato do presidente Lula, do governo e da antiga cúpula do partido. Está em jogo, portanto, o julgamento do grupo que há dez anos comanda a legenda e tornou-se diretamente responsável pela atual degeneração petista. Historicamente policlassista, raramente monolítico, o PT encontra-se hoje especialmente dividido. Na proa do cisma ideológico e programático que atormenta a esquerda brasileira, o partido constitui, simultaneamente, o maior artífice e a principal vítima da mais séria crise política a atingir o país desde o impeachment de Fernando Collor. Não se deve, contudo, alimentar grandes fantasias transformadoras com os votos de hoje. A cisão, balizada pela trilha seguida pelo partido nos últimos anos, é mais profunda e complexa de superar do que a mera troca de dirigentes poderia sugerir. Há uma crise em curso, promovedora de fraturas indissipáveis e decorrente não apenas dos desvios éticos de uma quadrilha que tentou abarcar o Estado. É resultado também de um projeto estratégico de feições equivocadas - capaz de confundir meios e fins, com um método centralizador e autoritário que, a partir da chegada do partido ao poder, incluiu a poderosa máquina federal para garantir a fidelidade e a obediência da base de apoio ao Palácio do Planalto - ampliado pela desagregação da coligação governista. O mandonismo e o aparelhamento vigentes, viu-se, foram desastrosos, com efeitos perturbadores sobre o PT, o governo, a classe política e, sobretudo, os brasileiros.
Independente do resultado, convém sublinhar, já não parece haver dúvidas de que o antigo PT, aquele que intencionou qualificar-se como a única fonte de tudo o que é mais virtuoso na política brasileira, tornou-se peça de museu. Um retrato de uma história que talvez nunca tenha chegado a existir. Eleitores, em geral, e militantes, em particular, sabem hoje que o monopólio do bem não nasceu com os petistas. Do mesmo modo, reconhecem que o partido foi capaz de promover odiosas negociatas para estender a permanência de seus principais morubixabas nas tendas do poder. Ilusões foram aplacadas ainda pela realpolitik, que exigiu pragmatismo, responsabilidade e, por vezes, conservadorismo dos seus comandantes na condução da economia, por exemplo. Descobriu-se, enfim, que se requer bem mais do que uma milagrosa ''vontade política'', cuja ausência, nos governos anteriores, seriam os responsáveis pelas chagas mais crônicas a afligir o país. Assim acreditava muita gente de boa vontade.
Deparar-se com a impossibilidade de ''revoluções'' foi algo a que o PT se habituou em 25 anos de vida. Embora de maneira incerta, o partido cresceu defendendo o socialismo, mas balizado pela necessidade de acomodar tal aspiração às limitações da conjuntura. Rejeitava a polarização da esquerda entre o ''socialismo real'' (que dizia amém à União Soviética) e os partidos operários europeus. Um lado, totalitário, ruiu. O outro desmontou-se pela insustentabilidade fiscal do Estado do Bem-Estar Social. Programaticamente indefinido, o governo petista se sustentou na economia. Os dilemas, portanto, não se resumem aos conflitos éticos e morais - que são muitos e graves, insista-se, conforme se vê nos intempestivos pedidos públicos de desculpas e confissões de erros. A reacomodação das múltiplas forças que o integram será tarefa inadiável para os meses seguintes. Resta saber se os dirigentes estarão à altura do desafio de responder ao inevitável: qual PT sobreviverá?