Título: A explosiva influência do neonazismo
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Fonte: Jornal do Brasil, 18/09/2005, Internacional, p. A12
Enquanto a democracia alemã se fortalece com as eleições de hoje, espalhados pelo país encontram-se centenas de grupos neonazistas. Jovens que, por convicção ideológica racista ou mera influencia de amigos, agridem aleatoriamente aqueles que consideram diferentes. Só na última década, aproximadamente 12 mil pessoas foram vítimas de tais ataques.
Os atentados, recorrentes no fim dos anos 80 na Alemanha Oriental, ressurgem com força renovada. A ascensão do Partido Democrático Nacional (NPD) - uma extrema-direita associada ao radicalismo dos pensamentos típicos ditatoriais - nas eleições municipais de 2004 preocupa. Apenas na Saxônia, a sigla conquistou 9,2% dos votos: um percentual bem elevado para a legenda.
- À frente do NPD desde 1996, Udo Voigt disse que ''estava com eles'', referindo-se aos neonazistas. Foi o estímulo para o crescimento desse pensamento - explica ao JB o cientista político Hajo Funke, professor da Universidade Livre de Berlim.
Em constante pesquisa sobre os movimentos neonazistas, Funke acredita que, basicamente, quatro fatores levam esses jovens a clamar pela violência: a tradição histórica alemã de ter sempre algo para atacar e combater; a necessidade de se sentir incluído em um grupo; o discurso dominante da Alemanha Ocidental que, na maioria das vezes, recrimina o passado e acaba fomentando os ataques; e o crescente índice de desemprego.
- As reações são resultado de uma mistura, intensificada pelo número de jovens desempregados. Mas para isso acontecer é porque existe ainda a cultura da violência no país - enfatiza Funke, ressaltando que tais movimentos têm uma longa trajetória de plantar idéias em certas regiões, sem serem advertidos o suficiente pelo governo.
Ao menos, alguns representantes da União Democrata Cristã (CDU) - partido da direita conservadora da candidata Angela Merkel - não demonstram muita preocupação:
- Há uma certa tendência dos jovens banalizarem e aderirem ao extremismo da direita. Mas não vejo relação entre a ascensão direitista e a intensificação de movimentos neonazistas - afirma Knutz Pilz, membro da Junge Union (Organização dos Jovens da CDU).
A falta de um programa específico dedicado ao resgate de neonazistas, em especial por parte da Junge Union, vem sendo suprida, até o momento, por ONGs. É o caso da Exit, fruto do desenvolvimento do Centro Democrático de Cultura, apoiada pelo governo federal.
Fundado em 2000 pelo ex-chefe da polícia de delitos políticos, Bend Wagner, e desde 2004 funcionando como uma organização independente, a Exit tem como um dos principais objetivos acolher jovens que queiram deixar o extremismo de direita e as vertentes extremas do islamismo. Em 5 anos, apesar das inúmeras dificuldades financeiras e sociais, mais de 220 jovens se afastaram totalmente do neonazismo. Apenas seis dos que já passaram pela instituição retornaram a seus grupos de origem e aos conseqüentes ataques.
- Há uma perseguição enorme por parte dos neonazistas a aqueles que querem deixar o grupo. É preciso um acompanhamento social, psicológico e de segurança, além de um trabalho com os pais desses jovens - alerta Wagner.
O presidente da Exit traça três perfis dos que recebem apoio da fundação. Primeiro, há aqueles que ficam sabendo da organização e chegam decididos a sair e a lidar com o neonazismo como passado. Há também os que estão presos à ideologia, buscam ajuda, mas temem sair dos grupos. Esses, segundo Wagner, são mais agressivos e atingem uma radicalização maior.
Os casos mais complicados, porém, fazem parte do terceiro grupo. São os com maior nível de instrução, que aderem ao neonazismo mais tarde:
- Esses participam dos movimentos, após leituras e estudos, pela ideologia em si. Sentem-se a elite nacional e acham que entendem tão bem o passado e o presente que serão os donos do futuro.
É justamente esse terceiro perfil que está colaborando com a expansão do NPD. Alguns membros chegaram a distribuir CDs exaltando o nazismo em escolas.
- O partido vem crescendo graças ao trabalho dos jovens aliados neonazistas. Eles estão em busca de uma forca central nacionalista, com perspectiva de crescimento - explica Wagner.
*A repórter viajou a convite do governo alemão