Título: O dia D para um país indeciso
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Fonte: Jornal do Brasil, 18/09/2005, Internacional, p. A12
A eleição de hoje na Alemanha é mais que a simples disputa entre a candidata da oposição, Angela Merkel, e o atual chanceler, Gerhard Schröder, que tenta a reeleição. Quando forem às urnas, os 61 milhões de eleitores alemães vão ter de decidir entre o político carismático que amarga a maior taxa de desemprego desde a Segunda Guerra Mundial e a mulher que se apresenta como uma opção à crise, mas não encanta o eleitorado. Já trocou, em discurso, o significado das palavras ¿bruto¿ e ¿líquido¿ quando falava da reforma econômica que quer fazer se ganhar. Indeciso, o país acorda esta manhã sem que possa ser feita uma projeção do resultado. Tudo pode acontecer na terceira economia do mundo, que precisa de ajustes urgentes em suas finanças. Especialistas não se arriscam a apostar suas fichas em um ou outro candidato, especialmente porque na última semana os dois partiram para ataques mais ácidos, e as pesquisas mostraram que, embora Merkel esteja na liderança, com 51%, a diferença é pequena ¿ próxima dos 10 pontos percentuais. Além disso, nada menos do que 20% dos eleitores se declararam em dúvida na véspera de eleger o novo Parlamento, de 598 membros. Na Alemanha, o voto não é obrigatório.
¿ É o maior número de indecisos já registrado em qualquer eleição geral no país ¿ espantou-se ontem Richard Hillmer, diretor do instituto de pesquisas Dimap.
A candidata da aliança União Democrata Cristã (CDU, na sigla em alemão), União Social Cristã (CSU) e Partido Liberal Democrata (FDP) se dedicou a lembrar que Schröder prometeu baixar os níveis de desemprego e não conseguiu ¿ o índice hoje é de 11,4%. Membro do Partido Social Democrata e apoiado pelos Verdes ¿ que também têm candidato próprio, o ministro de Relações Exteriores, Joschka Fischer ¿ , o chanceler tratou de usar o medo que alguns eleitores têm do radicalismo que Merkel pode significar e da reforma econômica que, segundo ele, pode obrigar os pobres a pagar mais impostos.
¿ As pessoas estão se sentindo órfãs. Muitas acham que os sociais-democratas não têm a capacidade de governar o país. Algumas dizem que não querem. Mas muito poucas têm esperanças de que um governo liderado pelos democratas-cristãos possa fazer muita coisa ¿ avalia Manfred Guellner, do instituto de pesquisa alemão Forsa.
A seu favor, Schröder tem a resistência dos alemães à guerra de George Bush no Iraque, que ele rejeita e Angela Merkel apóia. Também se vale do ¿fator Kirchof¿, uma referência à eminência parda para assuntos econômicos da candidata, Paul Kirchof, e suas propostas de reformas ¿ o estabelecimento de uma alíquota única de 25% é uma delas. O homem que deverá ser o ministro das Finanças se Merkel ganhar também encontra resistência dentro da CSU ¿ alguns membros já avisaram que não o querem por perto.
¿ Angela tenta entusiasmar as pessoas com seu programa, mas não está conseguindo. Há muito sangue, lágrimas e sacrifício em seu projeto de governo ¿ opina Bertrand Benoit, do Financial Times.
A candidata, por sua vez, se agarrou à infelicidade do povo alemão, que vive hoje numa espécie de panela de pressão, atmosfera causada por desemprego e problemas no sistema da previdência social, que precisa ser revisto imediatamente. E vive de lembrar todas as promessas que Schröder fez e, segundo ela, não cumpriu.
Ontem, ambos tentaram conquistar cada valioso voto dos indecisos. Rouco de tanto discursar nos últimos dias, o chanceler foi à rica Frankfurt e falou para 20 mil pessoas. Pediu que elas não desanimem diante das pesquisas de intenção de voto e lembrou que as eleições não estão decididas. Mais cedo, em Recklinghausen, o pedido foi o mesmo:
¿ Quando forem votar, levem seu avô e sua avó, desde que eles votem no SPD ¿ brincou.
Em Bonn, antiga capital da Alemanha Ocidental, Merkel só conseguiu reunir 7 mil espectadores no comício. ¿Angie¿ voltou a acusar Schröder de querer causar pânico diante da possível mudança de governo e afirmou que, se vencer, haverá a consolidação dos orçamentos públicos, redução da burocracia e alívios tributários para pequenas e médias empresas. Merkel também atacou o ministro das Finanças, Hans Eichel, a quem acusou de ter uma lista secreta de cortes que afetarão os alemães após o pleito.
¿ Ao contrário do SPD, não escondemos planos de economia no cofre ¿ afirmou.
Antes do ato eleitoral em Bonn, a conservadora teve uma reunião com o chefe do Partido Liberal, Guido Westerwelle (que também é candidato à chancelaria), com quem espera formar coalizão após as eleições de hoje.
Joschka Fischer Partido Verde EFE
Joseph Martin ¿Joschka¿ Fischer nasceu em 1948, é o ministro de Relações Exteriores da Alemanha e vice-chanceler da coalizão vermelho-verde desde 1998. É a figura mais importante do Partido Verde. Seu sucesso político vem da fama de radical. Na década de 70 participou de manifestações e até espancou um policial. Mas não se arrepende: ¿Sem minha biografia, seria uma pessoa diferente. Não gosto dessa idéia¿, afirma. Hoje, enfrenta críticas dos esquerdistas por ter se tornado pragmático.
Gerhard Schroeder Partido Social-Democrata EFE
Gerhard Schröder é chanceler desde 1998. Lidera a coalizão do Partido Social-Democrata (SPD), do qual é membro desde 1963, com os Verdes. A aliança possui atualmente uma banca reduzida no parlamento. Candidata-se novamente ao cargo depois de uma derrota sofrida pelo SPD nas eleições regionais da Renânia Vestfália do Norte, que o levou a convocar a votação de hoje.
Schröder é criticado por não conseguir vencer as dificuldades econômicas que assombraram seus mandatos. Introduziu a redução de impostos e as reformas trabalhista e da previdência.
Nasceu em 1944 e foi eleito pela primeira vez em 1980, à câmara baixa do parlamento.
Angela Merkel União Democrata Cristã (CDU) AFP
Angela Merkel, de 51 anos, empenhou sua campanha em acabar com a imagem sisuda que a tornava muito menos carismática que o rival Schröder. Alterou a aparência, mudando o corte de cabelo e passou a usar maquiagem. Além disso, elegeu a famosa balada ¿Angie¿, dos Rolling Stones, como fundo musical de seus comícios. Nascida em Hamburgo e filha de um pastor protestante, Merkel chegou a liderança de um partido dominado tradicionalmente por homens. Casada, sem filhos, formada em Física, se envolveu na política nas primeiras eleições presidenciais pós muro de Berlim, em 1989. Em 1991, foi ministra da Mulher e da Juventude no governo de Helmut Kohl.