Título: A conta dos juros irreais
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 18/09/2005, Economia & Negócios, p. A17
Se o Brasil adotasse uma política de juros semelhante a dos demais países em desenvolvimento gastaria cerca de um terço do que desembolsa hoje para seus credores. A diferença chega a R$ 85 bilhões só neste ano, cifra que daria para cobrir todo o déficit do INSS previsto para o ano que vem (R$ 39 bilhões), além do programa Bolsa-família (R$ 8,32 bilhões) e do orçamento do Ministério da Saúde (R$ 37 bilhões). A estimativa é da consultoria GRC Visão, segundo a qual o país ostenta uma taxa de juros real (descontada a inflação) duas vezes mais alta do que a do segundo colocado, a China. O Brasil atinge, com a redução de 0,25 ponto percentual ocorrida na última semana, taxa real de 14%, contra 6,3% da economia que mais cresce no mundo. Em outras palavras, o custo do dinheiro para um brasileiro é o dobro do que para um chinês.
¿ Além de uma redução do valor pago, com a própria queda dos juros, haveria a possibilidade também de diminuir a exposição a este passivo. Afinal, quando uma dívida é alta, é rolada. Quando cai, é honrada ¿ avalia o economista-chefe da GRC Visão, Jason Vieira.
A exigência de austeridade fiscal é bem conhecida, porém poucas vezes respeitada.
¿ Seja via déficit nominal zero ou superávit primário maior do que a meta atual de 4,25% do PIB, é preciso fazer economia. Só assim, o Brasil terá um upgrade ¿ diz, referindo-se à declaração do ministro Antonio Palocci, na última semana, de que o país alcançaria em breve o grau de investimento (investment grade), o que significa pequeno risco a investidores.
¿ Para ter grau de investimento, é preciso alcançar crescimento e só baixar juros não é suficiente. É preciso manter contas equilibradas ¿ endossa o economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira.
O governo central pagará este ano, segundo cálculos do Ministério do Planejamento, R$ 127 bilhões em juros, 60% a mais do que em 2004 (R$ 79,4 bilhões). A causa indiscutível é a elevação da taxa básica de juros (Selic) e sua manutenção em níveis elevados pelo maior tempo desde a liberação do câmbio e a adoção das metas de inflação, em 1999. A média da Selic saltou de um patamar de 16% anuais em 2004 para 19,2%.
Para muitos, o Comitê de Política Monetária (Copom) foi além do tolerável.
¿ Poderia ter baixado há mais tempo, em junho ou julho ¿ avalia o diretor do Banco Itaú e ex-diretor de Política Econômica do Banco Central, Sérgio Werlang. ¿ Daqui para frente, o BC vai ficar de olho nos indicadores de agosto para decidir se aumenta a velocidade de queda de juros. Se a indústria continuar desacelerando, o corte poderá ser de 0,5 ponto percentual.
Com a perspectiva, o déficit nominal do governo ¿ que inclui todas as despesas, inclusive o pagamento de juros ¿ deverá voltar a crescer, de 2,7% do PIB no ano passado para algo perto de 3,6%, segundo estimativa da Consultoria Tendências.
¿ Se mantiver o superávit de 4,25%, como prevê o orçamento de 2006, o governo poderá ver cair um pouco o resultado nominal no ano que vem, para 3% ¿ estima o economista Guilherme Loureiro, especialista em finanças públicas da Tendências.
Devido à conjugação de juros muito elevados e estoque de dívida também alto, segundo Loureiro, há a impressão de que o superávit primário, na casa dos 5% do PIB ¿ como está ocorrendo este ano, embora a meta fixada seja de 4,25% ¿, não ajuda a resolver o problema. A dívida mobiliária brasileira atingiu, em julho (dado mais recente) R$ 915 bilhões e o governo não descarta que o passivo atinja a marca histórica de R$ 1 trilhão ainda este ano.
¿ O superávit é muito positivo, mas não está sendo suficiente para evitar que o resultado nominal pare de crescer. Em um cenário com juros em queda, como se estima para o ano que vem, há a perspectiva de melhora ¿ diz o economista.