Título: Vigília tensa
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 05/11/2004, Internacional, p. A8
Mesmo com a sucessão política em tese já definida, palestinos temem que a eventual morte de Yasser Arafat deflagre uma luta sangrenta pelo poder. Por isso, moradores da Cisjordânia e da Faixa de Gaza estavam ontem grudados no rádio e na TV em busca da verdade sobre a saúde do líder palestino de 75 anos.
- Se Abu Ammar morrer, temo que a causa palestina morra com ele - analisou Hassan Ali, um estudante de 18 anos, referindo-se a Arafat por seu nome de guerra.
Apesar dos apelos por calma, é crescente o temor pelo vácuo político que Arafat deixaria depois de décadas centralizando o poder.
- Só Deus sabe quando ele morrerá, mas será uma perda e abrirá as portas para a desordem civil - disse Tamam Hamoud, funcionário público de Ramala. O taxista Abu Hamdi concordou.
- Tenho medo que os palestinos lutem entre si. Ninguém mais tem condição de solucionar os problemas em casa - disse, numa alusão aos conflitos entre facções das 13 forças de segurança oficiais em Gaza. Houve batalhas campais e seqüestros de chefes nomeados pela cúpula da ANP mas sem comando nas bases. Mesmo insatisfeitos pela ausência das reformas prometidas pelo líder, os palestinos parecem determinados a optar por vê-lo como símbolo da luta pela independência.
No café Ali Babba, na praça central de Ramala, um telão sintonizado na rede Al Jazira transmitia notícias regulares. Para o grupo de homens que ouvia bebendo café e fumando cachimbos de água, havia una certeza: a da imortalidade de Arafat dentro de sua causa.
- Depois dos acordos de Oslo, nós pensamos que ele era a única pessoa capaz de unir nosso povo - dizia o engenheiro civil Asam Qassam, 24 anos. - Sempre foi respeitado como um líder democrático que passou 40 anos protegendo os palestinos e levando nossos problemas aos europeus e americanos - completou.
Para outros, a apreensão com o desaparecimento de Arafat vem da incerteza quando ao futuro. Mohammad Yazan, 22 anos, estudante de engenharia na Universidade Bir Zeit, em Ramala, avaliava:
- Certamente haverá uma disputa. Mas também há uma unidade que impedirá a guerra civil. Sabemos da situação e de que precisamos estar unidos contra a ocupação israelense. Não podemos brigar entre nós - completa.
Mohammad Barghouti, 22, engenheiro civil, diz que o mais importante para os palestinos deve ser lutar para que a escolha da liderança se faça sem interferência externa.
- Merecemos algo melhor do que o que se vê no Iraque e no Afeganistão. Queremos decidir nossos destinos - afirma, em alusão ao desejo comum de eleições. Outra opinião comum: o destino de Arafat. Todos querem que o líder seja trazido para morrer em casa.