Título: Nova versão para furto na PF
Autor: Duilo Victor e Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 21/09/2005, Rio, p. A13
A Polícia Federal apresentou ontem nova versão para o furto de R$ 2 milhões em notas de euro, dólares e reais na sede da superintendência da instituição no Rio. Um dia depois de o crime ter sido descoberto, o delegado regional executivo, Roberto Prel, informou que seis portas da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), inclusive a do gabinete do delegado, foram arrombadas. Segundo Prel, a sala apresentada segunda-feira como alvo do furto é, na verdade, o local onde ficaram guardados os 1.600 quilos de cocaína apreendidos na Operação Caravelas. O dinheiro, de acordo com a nova versão, estava em outra sala-cofre dentro da mesma delegacia. A primeira versão apresentada pela PF era de que apenas duas portas e o armário do cartório da DRE tinham sido arrombadas para dar acesso à chave da sala-cofre - onde estaria a quantia apreendida na Operação Caravelas. As seis portas arrombadas foram mostradas ontem. Roberto Prel, no entanto, afirmou que as diferenças entre as versões para o roubo não passaram de um mal-entendido.
- Não contei o número de portas (arrombadas). O cofre onde está a droga e o furtado têm o mesmo grau de segurança, só o que muda é que um fica na DRE e outro, fora - justificou Prel.
As cédulas de euros, dólares e reais, apreendidas no apartamento do português Antônio Damaso - apontado como um dos chefes da quadrilha -, chegaram à sede da PF por volta das 20h de quinta-feira. A quantia deveria ser depositada na agência do Bando do Brasil no Andaraí na manhã seguinte. No entanto, até o fim da tarde de sexta-feira, os sacos plásticos com o dinheiro ainda estavam na sala da assessoria de imprensa da PF, que liberou o material para fotografias e filmagem entre 15h30 e 17h30 - além, portanto, do expediente bancário.
- A perícia no local já foi encerrada. Agora vamos partir para a investigação na rua. Os indícios de envolvimento interno (de policiais) são fortes - afirmou o delegado regional executivo.
Segundo Prel, houve falha do escrivão que guardou as chaves da sala-cofre em um armário no cartório da DRE. Dois delegados de Brasília - entre eles o superintendente da PF em no Distrito Federal, Daniel Sampaio -, agentes e peritos estão desde segunda no Rio para liderar as investigações sobre o furto. Câmeras que monitoram as principais entradas do prédio estão sendo analisadas para identificar todos que entraram e saíram da sede da PF na Praça Mauá entre a primeira hora de domingo e a manhã de segunda - período em que a polícia acredita ter ocorrido o crime.
A Polícia Federal está investigando a ligação da quadrilha presa pela Operação Caravelas com policiais da Superintendência da PF no Rio de Janeiro.
- Há bandidos infiltrados no nosso meio. Apesar de serem minoria, isso causa um dano muito grave à nossa imagem - disse ontem o diretor-geral da Polícia Federal, delegado Paulo Lacerda: - Estamos todos indignados. Isso confirma o que eu falei desde o início, que as polícias no Brasil têm graves problemas de corrupção.
A corregedoria da Polícia Federal colheu ontem os depoimentos de 20 dos 59 policiais afastados.
O corregedor regional da PF, Victor Hugo Poubel, disse ontem que vai investigar a informação de que um dos presos, José Antônio de Palhinhos, teria dito a um colega de cela que a quantia apreendida em seu apartamento seria sete vezes maior que a informada pela PF - como publicou o colunista Ricardo Boechat, do Jornal do Brasil.