Título: PMDB, PT e PFL definem seus candidatos à Câmara
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 22/09/2005, País, p. A4

Horas depois da renúncia do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), os três maiores partidos do Congresso confirmaram seus candidatos à sucessão na Câmara. Em reuniões que terminaram no fim da noite de ontem, o PMDB fechou em torno de Michel Temer (SP) e o PT, do líder do governo, Arlindo Chinaglia (SP). À tarde, o PFL já havia ratificado o nome do deputado José Thomaz Nonô (AL) para a sucessão de Severino.

Hoje, com o objetivo de evitar que o nome de Thomaz Nonô, principal candidato da oposição, ganhe vitalidade entre os partidos na Câmara, o palácio do Planalto irá trabalhar pela realização das eleições o quanto antes.

A orientação é para que os líderes da base governista defendam hoje, durante a reunião de líderes, que a escolha do sucessor de Severino Cavalcanti (PP-PE) aconteça amanhã. Pelo regimento, é possível. A Câmara tem o prazo de cinco sessões ordinárias para realizar as eleições. Ou seja, entre amanhã e a próxima quinta-feira.

Ontem, antes mesmo da renúncia de Severino, o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), já atuava para conseguir o maior número de adesões à proposta. A idéia, como não poderia deixar de ser, esbarrava no PFL, a cada minuto mais entusiasmado com a possibilidade de efetivar Nonô no cargo.

Anteontem, em conversa por telefone com o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), o senador José Agripino (PFL-RN) foi explícito. Disse que a candidatura de Nonô era uma realidade e que havia ganho dinâmica própria nas últimas horas, motivos pelos quais o PFL não prescindiria mais dela.

Ontem o pefelista contabilizava apoios no PSDB e PPS.

- É preciso fazer com que a Câmara deixe de ser uma mera delegacia. Temos que aprovar os projetos de interesse do país - bradou Nonô empunhando a bandeira de candidato.

O Planalto decidiu entrar de cabeça no processo sucessório por entender que, sob o comando da Câmara, o PFL será capaz de mover mundos e fundos para atrapalhar a reeleição de Lula em 2006. Por isso havia instruído as principais lideranças do governo, desde a última semana, pela definição de um governista que seja palatável à oposição e objeto de consenso na Casa.

- Não podemos errar outra vez - tem dito Lula nos últimos dias em conversas com auxiliares.

Dentre os nomes do PT, Chinaglia sempre foi o candidato do coração do Planalto, embora Lula também torcesse no íntimo para que o ex-ministro e fiel aliado Aldo Rebelo (PCdoB), unisse governo e oposição em torno de seu nome. Aldo contava com a simpatia de Renan Calheiros, de partidos da base aliada e de setores da oposição. Renan, por exemplo, considerava que Aldo resolveria o problema do conflito entre as duas Casas responsável pela obstrução das votações, sobretudo na Câmara, de projetos de interesse do governo. Mas com a decisão do PT em torno de Chinaglia, Aldo deve abrir mão de sua candidatura.

- O presidente ideal será aquele que assumir o compromisso de votar as reformas política e tributária, enviada pelo Senado ainda em dezembro do ano passado - afirmou Renan ontem.

O presidente do Congresso joga afinado com o Planalto. Durante a semana, por meio de emissários, Lula fez chegar a Renan que não gostaria de ver Temer na cadeira de presidente da Câmara. Lula revelou a interlocutores que perdera a confiança em Temer depois do episódio em que, num dia posou para fotos no Palácio do Planalto em nome da governabilidade, e no dia seguinte subscreveu uma nota contrária ao desembarque do PMDB no governo, durante a mais recente reforma ministerial do governo.

Resultado: Renan passou a atuar nos bastidores para inviabilizar Temer. Não deu certo. No fim da noite, deputados da bancada do PMDB formalizaram o nome de Michel Temer à presidência.

Até então, Temer acenava com uma proposta tentadora para seduzir a ala governista do partido. Em troca do apoio a sua candidatura, trabalharia no partido para fazer do senador José Sarney (PMDB-AP), o seu sucessor na presidência do PMDB. A postura dúbia de Temer, durante a última reforma ministerial de Lula, também fez com que Sarney colocasse um pé no freio no acordo.