Valor Econômico, v. 20,
n. 4875, 07/11/2019. Política, p. A12
Maia vai priorizar
reforma tributária
Raphael Di Cunto
Marcelo Ribeiro
Contra o esvaziamento no protagonismo da Câmara
sobre a agenda econômica, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pretende
insistir na aprovação da reforma tributária, em discussão desde agosto entre os
deputados, mas paralisada há um mês à espera de o governo oficializar uma
proposta própria. “Tem que controlar a despesa e destravar a economia. Só
controla despesa com essas mudanças [propostas pelo governo ao Senado] e só
destrava a economia com a reforma tributária”, disse ontem.
Após Maia assumir o protagonismo
na reforma da Previdência, o governo esvaziou a agenda econômica da Câmara e
propôs diretamente ao Senado três propostas de emenda constitucional (PEC) para
reforma do Estado, ações emergenciais de corte de gastos e revisão do pacto
federativo. As propostas do Executivo deveriam começam a tramitar pela Câmara,
mas a equipe econômica ofereceu os textos das PECs
para senadores protocolarem, o que irritou deputados.
Maia voltou a dar mais
ênfase na reforma tributária e afirmou a aliados que pretende resolver ainda
hoje com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(DEM-AP), o impasse sobre a tramitação. Os senadores debatem um texto, baseado
na proposta do ex-deputado Luiz CarlosHauly
(PSDB-PR). A Câmara analisa proposta do economista Bernard Appy.
Discute-se há mais de um mês a criação de uma comissão mista, com deputados e
senadores, para unificar os textos, mas isso não saiu do papel até agora.
Maia quer que, como o
Senado assumiu o protagonismo no pacto federativo, a Câmara fique com a
simplificação de tributos. O cálculo envolve a tese de que os senadores já
estarão empenhados em três PECs complexas e que a
tributária ficará sem espaço para avançar no Senado.
Relator da reforma
tributária na Câmara, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) reforçou o discurso
de Maia e disse que todos os empresários e investidores com os quais conversa
dizem que a prioridade deve ser a simplificação do sistema tributário. “Estamos
fazendo reuniões, negociando, mas só vou apresentar o relatório quando for para
votar. Minha expectativa é conseguir isso ainda este ano”, disse.
A oposição na Câmara
lembrou que o próprio governo prometia priorizar a simplificação de tributos
depois de aprovada a reforma da Previdência e defendeu que essa deve ser a
prioridade, e não as PECs do pacto federativo.
“Queremos votar antes a reforma tributária, da qual o governo Bolsonaro não
cansa de fugir porque quer proteger os super ricos e
mirar a população mais pobre", disse o líder da oposição na Câmara,
deputado Alessandro Molon (PSB-RJ).
O governo não tem prazo
para enviar uma proposta de reforma tributária, afirmou ontem o ministro-chefe
da Casa Civil, Onyx Lorenzoni,
que se reuniu à tarde com o presidente da Câmara para tratar do pacto
federativo. Segundo Onyx, uma ideia é que o governo
proponha apenas “ajustes” nos textos do Congresso se houver uma comissão mista.
A privatização da Eletrobras, enviada anteontem à Câmara, ainda depende da
decisão de Maia sobre a criação de uma comissão especial e de quem será o
relator, mas foi defendida ontem pelo líder do PP, Arthur Lira (AL), como uma
medida “conveniente”.