Valor Econômico, v. 20, n. 4876, 08/11/2019. Política, p. A10
Vou sair mais à esquerda do que entrei [na prisão], diz Lula
Cristiane Agostine
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que sairá “mais à esquerda” da prisão do que quando foi preso, em abril de 2018, há 580 dias. Assim que deixar a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, o ex-presidente deve assumir o papel de principal opositor do presidente Jair Bolsonaro e planeja uma série de viagens pelo país, na tentativa de reaglutinar a esquerda, aproximar o campo progressista do centro e construir uma proposta alternativa de governo, com vistas à eleição presidencial de 2022.
A defesa de Lula pedirá a imediata soltura do petista, depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de barrar a prisão de condenados logo após a segunda instância. Os advogados Cristiano Zanin Martins e Valeska Martins afirmaram que o ex-presidente está “preso injustamente”, de “forma incompatível com a Constituição” e que é vítima de “perseguição política”. A defesa do petista aposta ainda na anulação do processo que levou o ex-presidente à prisão, e pedirá para que a
Suprema Corte julgue os habeas corpus que contesta as acusações e aponta a suspeição do então juiz responsável pela Lava-Jato, Sergio Moro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro.
Lula tem traçado os primeiros movimentos fora da prisão e deu um recado a seus apoiadores, por meio de um dos coordenadores nacionais do MST, João Paulo Rodrigues, com quem se esteve na tarde de ontem. “Avisa aos sem-terra que vou sair mais à esquerda do que entrei. Vou sair fazendo luta, vocês vão ver um dirigente rodando o país”, relatou Rodrigues, depois de visitar Lula.
Assim que deixar a Superintendência da PF, Lula visitará a vigília feita por aliados em Curitiba e seguirá para um ato com a militância em São Paulo. Aliados do petista têm planejado uma extensa agenda de viagens, sobretudo pelo Nordeste, e convidaram Lula até para um jogo de futebol no dia 21 no assentamento do MST em Guararema (SP), com a participação de Chico Buarque.
Durante parte do julgamento, Lula reuniu-se com a presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e o dirigente do MST. Gleisi disse que a decisão do STF fortalece a democracia e a Constituição, e defendeu a anulação do processo para que Lula tenha de volta seus direitos políticos e dispute nova eleição. “A verdade vencerá”. O petista foi condenado no caso do triplex do Guarujá (SP) a 8 anos, 10 meses e 20 dias por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.