O Globo, n. 32657, 04/01/2023. Política, p. 6

União reage, e aliado critica cobrança de Randolfe

Gabriel Sabóia
Jussara Soares
Alice Cravo
Bruno Góes


A cobrança pública do líder do governo Lula no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (RedeAP), de que o União Brasil tem a obrigação de entregar ao governo “ao menos 60%” dos votos de suas bancadas no Parlamento por ter recebido três ministérios gerou um revide do partido recém-aliado a Lula e criou um mal-estar dentro da articulação política da nova gestão.

De um lado, o presidente da legenda, Luciano Bivar, recusou se comprometer com o percentual exigido pelo senador, e condicionou um apoio maciço dos parlamentares do União a nova distribuição de cargos pelo governo Lula, especialmente para deputados que chegarão à Câmara em fevereiro.

Mesmo entre aliados, a cobrança de Randolfe foi mal recebida. Ao GLOBO, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), criticou as declarações do senador em direção a um partido recém-chegado à base antes mesmo do fim do recesso parlamentar:

— Precisamos articular muito e falar menos para buscar construir a nova governabilidade congressual, que é a minha missão. O tempo vai definir as coisas. E nem é meu papel dar carão em ninguém. Todo mundo sabe da responsabilidade que os partidos têm com a nova governabilidade — avaliou Guimarães, evitando falar em percentual de votos de bancadas aliadas.

— Nem do PT eu vou dizer quantos votos tem. Não tem tantos votos para começar a base. É um processo que está em construção.

Perguntado especificamente sobre os 60% estipulados por Randolfe, Guimarães marcou território ao dizer que “quem cuida da Câmara é o José Guimarães”.

Resultado da fusão entre o PSL e o DEM, o União Brasil é um dos partidos da nova base de Lula cujos parlamentares têm maior distanciamento ideológico do PT. Petistas que participaram das negociações admitem que, apesar dos três ministérios, está na conta do governo que o apoio das bancadas na Câmara e no Senado não será total.

Mais cargos

Luciano Bivar afirmou ao GLOBO que por ora não pode garantir que ele será majoritário. E já adiantou uma cobrança em sentido inverso, ao dizer que o partido reivindicará maior espaço de participação na gestão.

— Os eleitos sequer assumiram os seus mandatos e têm pensamentos diversos, como posso garantir um percentual de apoio neste momento? O União quer, sim, ajudar o governo, mas ainda precisamos conversar muitas coisas. Os deputados eleitos esperam ser contemplados com espaços e esses postos podem ser negociados. Ainda temos tempo até lá e não falta boa vontade. Sempre estaremos ao lado das boas pautas —diz.

O líder do governo na Câmara reconheceu que a gestão petista precisará reabrir negociações com o partido, considerado importante por ter uma bancada eleita de 59 deputados.

— Tem umas pendências a serem resolvidas. Dizem que tem gente insatisfeita com isso e aquilo. Vamos buscar construir um entendimento com o União Brasil. Tem muito tempo e muito espaço para buscar o entendimento quando voltar do recesso — completou Guimarães.

Além do apetite do partido por mais espaço, a nova aliança já começou com percalços também em relação a nomes de integrantes do governo. O União Brasil queria emplacar no Ministério da Integração o deputado Elmar Nascimento (BA), mas ele foi vetado por ser um ferrenho crítico de Lula, inclusive com ofensas proferidas durante o processo eleitoral. Depois de ser preterido, Elmar, que é líder da bancada, chegou a declarar que a indicação de ministros não mudaria a posição de independência do União Brasil em relação ao novo governo.

Pastas “menores”

A indicação para a pasta de Integração foi articulada pelo senador Davi Alcolumbre (União-AP). Ele emplacou o ex-governador do Amapá Waldez Góes, que é o PDT mas está de malas prontas para o União Brasil. A pasta era uma das mais cobiçadas por siglas do Centrão por concentrar cargos e estatais como a Codevasf, com grande volume de obras pelo país.

Já os outros dois ministérios recebidos pela legenda satisfizeram menos aos caciques do partido, por não terem um orçamento tão alto e por supostamente proporcionarem menos ganhos políticos. Os deputados Juscelino Filho (MA) e Daniela do Waguinho (RJ) ficaram, respectivamente, com as pastas de Comunicações e Turismo. Além disso, a distribuição não teria agradado a todas as alas da legenda.

No Senado, o União terá uma bancada de dez senadores, mas alguns deles seguramente estão na oposição, como Sergio Moro (PR) e Alan Rick (AC).