Título: A verba da esperteza
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Fonte: Jornal do Brasil, 26/09/2005, Opinião, p. A10
Na inquietante insistência em repetir velhos erros e consumar práticas antigas, já enfaticamente rejeitadas pela população, o governo decidiu liberar R$ 500 milhões para obras e outras despesas incluídas pelos congressistas no Orçamento da União - as chamadas emendas parlamentares individuais. Eis um novo exemplo da máxima segundo a qual não basta ser honesto, mas parecer. E, em muitos casos, é preciso também prová-lo. A liberação governamental, às vésperas de um confronto com a oposição na disputa da presidência da Câmara - cuja eleição está marcada para quarta-feira -, é menos uma questão de honestidade e muito mais um problema de responsabilidade moral do Palácio do Planalto. Pouco adianta, por exemplo, a explicação do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para quem a proximidade entre os dois fatos - a liberação das emendas e a eleição do comando da Câmara - é apenas uma ''coincidência''.
Com a habitual dificuldade governamental de prevalecer seu candidato ao terceiro posto mais importante da República, há razões suficientes para suspeitar que o bom gesto do Palácio do Planalto é bem mais do que ''coincidência''. Resta saber se a esperteza vai colar. Promessas de liberação de verbas previstas nas emendas parlamentares perderam o crédito entre deputados. No Congresso, costuma-se dizer que não se aceita mais nem pagamento à vista. Só antecipado.
Bom ou ruim, parece haver pouco tempo, portanto, para arranjos fisiológicos que a bondade governista sugere. Reafirma-se, porém, a supremacia de um Poder sobre outro, com interferência que vai se tornando prática comum nos corredores do poder. O governo corre contra o tempo. Tem dois dias para conquistar a ''simpatia'' de parlamentares, especialmente aqueles que podem virar o jogo: o chamado ''baixo clero'', a maioria silenciosa habituada a pensar e votar conforme os dividendos presentes e futuros.