Título: Famílias consomem menos
Autor: Bruno Rosa
Fonte: Jornal do Brasil, 25/09/2005, Economia & Negócios, p. A18
A sobra no orçamento também está relacionada ao fato de as famílias deixarem de consumir, como explicaram 37,3% dos entrevistados ouvidos pela Fecomércio-RJ. Outros 18% dos lares deixaram de pedir empréstimos a bancos ou financeiras e quase 18% passaram a trabalhar mais que de costume.
- Essas soluções foram encontradas por muitas famílias, já que sabiam das dificuldades que teriam que passar até o próximo pagamento de salário - ressalta João Carlos Gomes, economista da Fecomércio-RJ.
Esse é o caso de duas famílias ouvidas pelo JB. A do porteiro Erasmo, cuja renda é de oito salários mínimos, e da empresária Maria Luiza, com ganho superior à média nacional. Ele mora na Tijuca e ela, na Barra da Tijuca. Em comum, as dificuldades de conciliar o orçamento no fim do mês e um consumo cada vez mais controlado.
Erasmo Amaro, de 51 anos, mora com a esposa, Albertina da Conceição de Souza, empregada doméstica de 52 anos, e as duas filhas no condomínio em que trabalha, na Tijuca. Chegar ao fim do mês com sobra na renda, diz ele, é um sacrifício com o custo de vida cada vez mais alto.
- Consigo juntar dinheiro a partir do segundo semestre. Me esforço muito para chegar ao fim do mês com um dinheiro a mais, porque estou juntando para comprar uma casa própria. É difícil, mas estou tentando. Por isso, dificilmente aumento meu consumo ou gasto em lazer com as minhas filhas. O aumento do 13º salário ajudou bastante, mas as contas de telefone, luz e água consomem boa parte do meu orçamento - afirma Amaro.
Erasmo e a esposa ainda poupam custos como transporte e alimentação durante o horário de almoço. A esposa também trabalha nos apartamentos do prédio em que mora.
- A minha renda familiar é de R$ 400. Não dá para ter muitas sobras no fim do mês. Mas o fato de minha esposa e eu trabalharmos onde moramos facilita bastante porque é um custo menor. Minha esposa faz o almoço, o que evita gastos extras na rua - completa Amaro.
Já Maria Luiza Marzullo, de 52 anos, também tem tentado juntar parte da renda de seu orçamento quando consegue organizar as despesas e controlar seus gastos. A saída, diz ela, é pesquisar os preços e as taxas de juros dos itens que pretende comprar. Maria diz que sempre teve o hábito de juntar dinheiro. Ela trabalha em uma fábrica de etiquetas de papel no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio.
- Pesquiso tudo. Às vezes nem compro porque, quando tenho muitas contas, não sobra. Mas tento ajustar meu orçamento para poupar parte da minha renda para poder viajar no fim do ano. Olho todas as minhas despesas na agenda. Controlo tudo - diz Maria.
Segundo dados da Fecomércio-RJ, quando há sobra no orçamento, existem algumas diferenças nas intenções de gastos entre as famílias com renda até oito salários mínimos e as que ganham mais que isso. Nas duas categorias de famílias, 25% dos entrevistados pretendem gastar o extra com lazer. Já quando a pergunta é guardar para consumir no futuro, as famílias de maior renda se preocupam mais com a poupança. O índice é citado por 31% delas. Já entre as menos favorecidas, o percentual cai para 18,97%.
- Outro item que apresenta grande diferença é a reforma da casa. Varia de 2,44% a 0,71% entre os mais pobres e mais ricos, respectivamente. A diferença pode ser explicada pelo fato de que a população de baixa renda sempre está em processo de construção da casa - conclui João Carlos Gomes, economista da Fecomércio-RJ.