Título: Preocupação com o futuro
Autor: Bruno Rosa
Fonte: Jornal do Brasil, 25/09/2005, Economia & Negócios, p. A18
De acordo com o estudo, a sobra do dinheiro já tem destino certo. Entre as 3,2 mil famílias entrevistadas na região metropolitana do Rio de Janeiro, cerca de 37% pretendem poupar para uma eventualidade no futuro. Além disso, 31% das pessoas querem guardar para as compras de fim de ano.
Para Carlos Thadeu de Freitas Gomes, Chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do Banco Central, o fato de as famílias tentarem juntar dinheiro está ligado aos juros altos e ao desemprego.
- A crise política até agora afetou apenas o nível de expectativa do consumidor, que ainda se preocupa com os altos juros da economia e o receio de que fiquem maiores que o necessário. Por isso, querem evitar ficar gastando, até porque o desemprego se aproxima dos dois dígitos - afirma Freitas.
Os indicadores, apesar de altos, mostram uma tendência de estabilidade. A taxa de desocupação (nível de desemprego), de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou em 9,4% em agosto deste ano, o mesmo resultado do mês anterior. Em comparação com igual mês do ano passado, registrou queda de 2 pontos percentuais.
Assim, o poder de compra do trabalhador continua crescendo. O rendimento médio real, estimado em R$ 973,20, apresentou elevação de 0,7% em relação a julho de 2005. Na comparação com julho do ano passado, o quadro de recuperação também se confirmou (3,7%).
- A economia estabilizada tende a aumentar os níveis de poupança. Por isso, muitas pessoas estão segurando o dinheiro para gastar no futuro. Uma hipótese pode ser a queda da taxa básica de juros, a Selic, este mês. Apesar de ainda não surtir efeito na economia, alguns bancos já anunciaram a queda nos financiamentos - endossa João Carlos Gomes, economista da Fecomércio-RJ.
A renda também é beneficiada pelo recuo na inflação. Segundo o IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - que baliza as metas do governo - obteve variação de 0,17% no mês de agosto e ficou abaixo da taxa de 0,25% de julho. No grupo Alimentação e Bebidas, a queda continuou, situando-se em -0,73%.
- O brasileiro começa a se preocupar quando dói no bolso. É importante lembrar que as tarifas administradas pelo governo, como o telefone, registraram recuo no preço, o que beneficiou o consumidor. Além disso, a desvalorização do dólar em relação ao real também contribui - completa Freitas.
Virene Matesco, professora de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), lembra que é importante observar o levantamento com um olhar pessimista. Para ela, cerca de 72% das famílias não conseguem chegar ao fim do mês com sobra.
- Isso é muito preocupante, mas as coisas vão as poucos melhorando. A sobra na renda dos lares pode ter sido ocasionada por uma reorganização da dívida familiar como, por exemplo, a negociação das dívidas a prazos mais curtos e a juros menores, a queda da inflação este ano. E ainda existe a possibilidade de algum membro da família ter conseguido algum emprego formal ou até mesmo um bico - aponta Virene.