Título: Corrupção derruba líder de Bush
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Fonte: Jornal do Brasil, 29/09/2005, Internacional, p. A8
A capital dos Estados Unidos teve ontem seu dia de Brasília. O líder do partido Republicano na Câmara dos Representantes, Tom Delay, foi indiciado por conspiração por ter aceitado doações de US$ 190 mil de empresas para as campanhas legislativas do Texas em 2002. O estado proíbe esse tipo de contribuição, e Delay pode pegar pena de até dois anos de prisão, além de multa que pode chegar a US$ 10 mil. Foi obrigado ontem a abandonar a liderança, embora possa manter o mandato, e já entrou para a história como o primeiro líder da maioria a ser indiciado desde a criação do cargo, em 1899.
- Não violei nenhuma lei, nenhum regulamento da Casa. Não fiz nada ilegal ou antiético. Também não fiz nada que ninguém já não tenha feito - tentou defender-se ontem o político conhecido como o ''Martelo'' por seu estilo mão-de-ferro.
Com Delay também foram indiciados dois de seus assessores na época, John Colyandro e Jim Ellis. Eles e o ex-líder dos republicanos integram o comitê Texa ns for a Republican Majority (Texanos por uma Maioria Republicana), responsável pela campanha de 2002. Acabaram vitoriosos e fizeram maioria no Poder Legislativo do Texas. Mas Colyandro e Ellis também já foram indiciados, ano passado, por terem aceitado outros US$ 600 mil em doações para a mesma disputa. Ainda não foram julgados. Entre as empresas que fizeram doações está o grupo Sears.
A notícia do inidiciamento de Delay caiu como uma bomba em Washington. E colocou na ordem do dia as inúmeras denúncias de irregularidades e até crimes cometidos por figuras proeminentes do partido do presidente. Uma delas, contra o líder no Senado, Bill Frist, que está sob investigação federal acusado de utilização de informação privilegiada na venda de ações. O senador vendeu ações pouco tempo antes de o preço despencar.
- A liderança republicana em Washington tem perdido mais tempo agora respondendo a perguntas sobre desvios éticos do que cuidando da vida das pessoas - provocou Howard Dean, líder do Comitê Nacional Democrata.
O presidente George Bush preferiu não se expor, só seu porta-voz, Scott McClellan, falou, cuidadoso:
- Delay é um bom aliado, um líder com quem temos trabalhado para obter realizações para o povo americano. Acho que a opinião do presidente é que precisamos esperar o andamento do processo - declarou. O ex-líder já foi substituído ontem mesmo por Roy Blunt, do Missouri.
O congressista já é velho conhecido da Comissão de Ética da Casa, que já o alertou formalmente por três vezes. Numa delas, ofereceu apoio à campanha do filho de um colega, caso o político votasse com o governo. O parlamentar abordado recusou a oferta e ainda o denunciou.
Ontem, depois de jurar inocência em todas as vezes que se manifestou publicamente, preferiu atacar o promotor do condado de Travis, no Texas, responsável pela investigação que gerou o indiciamento. Para DeLay, o democrata Ronnie Earle é ''fanático'' e atribui sua dedicação à uma ''vingança política''. Earle devolveu:
- Nosso trabalho é levar à Justiça os abusos de poder e trazê-los a público. - disse, fazendo questão de lembrar, sem detalhar, que sempre processou mais democratas do que republicanos.
Um dos poucos que não polarizaram a discussão foi o congressista Charles Rangel, do estado de Nova York.
- Não tenho a certeza de que os eleitores vão encarar esse caso como um desvio de conduta republicano e não olhar para nós como um Congresso desonesto.