Título: Obstáculos no caminho da Turquia
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Fonte: Jornal do Brasil, 29/09/2005, Internacional, p. A9

O Parlamento Europeu aprovou ontem a abertura das negociações para a entrada da Turquia na União Européia (UE) na próxima segunda-feira. Os eurodeputados alertaram, no entanto, que o país deve assumir o genocídio de armênios em 1915 e reconhecer a República do Chipre antes de fazer parte do bloco.

Em uma resolução aprovada por 365 votos a favor, 181 contra e 125 abstenções, os eurodeputados constataram que a ''Comissão Européia e o Conselho estimam que a Turquia cumpriu formalmente as últimas condições necessárias para a abertura de negociações de adesão no dia 3 de outubro'' - um processo que vai durar pelo menos 10 anos. A reunião acontecerá em Luxemburgo e foi agendada num encontro de cúpula em Bruxelas, em dezembro do ano passado. Na ocasião, os 25 Estados-membros da UE concordaram com a candidatura turca, cercada de polêmicas.

No entanto, os legisladores criticaram o fato de Ancara ter anexado, em julho, à assinatura do protocolo que amplia sua união alfandegária aos 10 novos países membros do bloco, entre eles o Chipre, uma declaração na qual afirma que isso não significaria o reconhecimento de Nicósia. Portos e aeroportos da Turquia continuam fechados para produtos cipriotas.

O Parlamento também destacou que este é ''um componente necessário do processo de adesão'', assim como o reconhecimento do massacre de 1915 que a Turquia insiste em não considerar um genocídio. As condições impostas, entretanto, não parecem ser um problema para o premier turco, Tayyip Erdogan:

- A decisão não afeta a entrada na UE. Não tem poder de sanção.

O Chipre está dividido desde que o Exército turco invadiu o Norte do país, em 1974, após um golpe de Estado dos ultranacionalistas greco-cipriotas, apoiados por Atenas, que desejava unir a ilha à Grécia. Hoje, a Turquia reconhece apenas a República Turca do Chipre do Norte, autoproclamada em 1983.

Já os armênios afirmam que 1,5 milhão morreu em massacres entre 1915 e 1917, época da desintegração do Império Turco-Otomano.

O ministro de Relações Exteriores do Reino Unido - país que atualmente ocupa a presidência da UE -, Jack Straw, está preocupado:

- Vai ser uma traição às expectativas dos turcos e ao programa de reforma de Erdogan se no último minuto virarmos as costas para a Turquia.

A situação da UE mudou substancialmente desde que França e Holanda rejeitaram por referendo a ratificação da Constituição Européia. As votações deixaram claro o temor pelas futuras ampliações do bloco, discussão que ocupou um lugar preponderante.